Reflexões sobre como a escola pode responder aos desafios sociais, econômicos e humanos de nosso tempo
Pensar a educação em nossa atualidade tem sido uma tarefa cada vez mais desafiante, já que estamos imersos numa sociedade marcada por desigualdades que se refletem totalmente no cenário de nossa sala de aula.
Com base na Carta Apostólica do Papa Leão XIV, “Desenhando novos mapas de esperança”, podemos vislumbrar direções que nos ajudam a encontrar possibilidade de respostas para a educação de nosso tempo. O Papa desenvolve sua reflexão partindo da certeza de que, cada vez mais, a educação se faz importante para a vida da pessoa humana, pois, por meio dela, podemos resgatar a dignidade humana e desenhar novos horizontes para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Nessa perspectiva, o Leão XIV reacende o trabalho dos carismas educativos para uma resposta única e essencial para as necessidades de nosso tempo: “Os carismas educativos não são fórmulas rígidas: são respostas originais às necessidades de cada época”. Ou seja, diante das desigualdades de nossa sociedade, as congregações religiosas devem continuar respondendo de forma concreta, seguindo sua missão primeira de educar o ser humano integral, com o intuito de que ele seja um agente de transformação.
O Papa nos diz que “A educação é uma obra coral: ninguém educa sozinho”. Assim, é preciso considerar que a educação é um processo que precisa ser desenvolvido de forma conjunta: família e escola. A colaboração mútua entre essas duas frentes já é um grande passo para o sucesso do trabalho educativo.
É preciso considerar a família como contribuinte fundamental. Escola e família precisam unir forças diante dos desafios da sociedade, pois somente assim será possível criar espaços de aprendizagem significativos, lembrando que a educação não visa apenas ao desenvolvimento intelectual, mas também ao desenvolvimento para ser sal e luz na realidade em que estão inseridos.
Educar para ser sal e luz é uma missão que exige cuidado, afeto e um olhar atento do educador. “A educação cristã abrange a pessoa inteira: espiritual, intelectual, afetiva, social, corporal.” Isso não significa olhar o ser humano como um ser fragmentado; ao contrário, é ter cuidado e atenção às suas múltiplas facetas, ajudando-o a se compreender para se comprometer com o outro.
Não é possível conceber uma educação que seja omissa diante de uma realidade tão discrepante, em que alguns têm grandes oportunidades, e milhares não têm nenhuma. Por isso, a educação deve olhar seu aluno como protagonista de uma nova história. A criança, o adolescente, o jovem são construídos dentro do espaço escolar e precisam ser educados para olhar a sociedade com óculos que consigam ir além do que a realidade nos mostra, sendo faróis de esperança a iluminar a estrada de tantas e tantas crianças e jovens marcados pela pobreza, desinformação, injustiça…
Sabemos que são muitos os muros erguidos diante dos mais pobres de nossa sociedade. Muitas vezes, esses muros parecem intransponíveis, fixando um futuro certo para aqueles que são os menos favorecidos. Mas esses muros precisam ser desfeitos, rompidos. Todos devem ter a possibilidade de sonhar e lutar por um futuro melhor, por melhores condições de vida, por romper ciclos de injustiças.
A missão de educar é tão complexa quanto estimulante. Mas “isso implica nos educadores uma disponibilidade para aprender e desenvolver conhecimentos, para renovar e atualizar metodologias, mas também para a formação e partilha espiritual e religiosa”. É preciso que o educador dialogue com as ferramentas de nosso tempo e com o coração de seus alunos. A excelência da educação possibilitará a construção de um profissional competente, mas é o amor que possibilitará a construção de um profissional comprometido. Nosso mundo precisa de pessoas novas, que rompam os muros das desigualdades e sejam multiplicadores de esperança às futuras gerações.
O Papa reafirma nossa missão: “A educação católica não pode permanecer em silêncio: deve unir a justiça social e ambiental, promover a moderação e estilos de vida sustentáveis, e formar consciências capazes de escolher não apenas o que é conveniente, mas também o que é certo”. É preciso que sejamos inspiração para nossos alunos, ensinando-os o compromisso com nosso planeta e com o ser humano, especialmente os mais necessitados.
A educação é um vasto espaço que deve ser aproveitado para que sementes sejam lançadas. Há tanto para ser trabalhado: ensinar para a construção de uma paz sem armas, para a não violência, para o resgate da dignidade humana, para o cuidado com a Casa Comum… Nós, educadores, ensinamos para além de nossas disciplinas; somos semeadores que lançam sementes no coração de nossos alunos, na esperança de que elas frutifiquem por meio do compromisso deles com os mais pobres e desfavorecidos.
Jesus diz que “A messe é grande, mas os operários são poucos” (Mateus 9,37), e essa realidade continua viva em nossos dias. Há muito o que ser feito para que nosso mundo seja um lugar melhor, onde haja amor e empatia e onde a desigualdade e a indiferença não existam. A educação se torna um farol que conduz os seres humanos para serem “operários dessa grande messe”, colaborando para que mais e mais pessoas se engajem na propagação do bem, no amor ao próximo e na missão de levar esperança à sociedade.

Erica da Silva Carneiro
Professora de Cultura Religiosa e Projeto de Vida, Colégio Espírito Santo, São Paulo-SP.
Imagem principal: Jacob Wackerhausen (Istock)
