“E foi transfigurado diante deles” (Mt 17,2)
O relato da Transfiguração em Mateus começa por um dado significativo: “Seis dias depois…”.
Inevitavelmente, o leitor se pergunta o que tinha ocorrido de tão importante seis dias antes e se encontra com o primeiro anúncio da paixão.
Mateus compõe seu evangelho tendo como horizonte a nova Criação. O relato da Transfiguração “acontece” seis dias depois. Estamos no sétimo dia. A criação não se conclui na “desfiguração” (morte), mas na Transfiguração (ressurreição).
O sexto dia precede o sábado no calendário judaico. É a véspera do Shabbath, no qual se celebra o final da Criação, o descanso de Deus por ter completado sua obra. É o dia da comunhão universal, dia da integração festiva de todas as criaturas, dia do repouso como prolongamento do repouso do Criador.
Mas o “sexto dia” é o que nos ocupa hoje, e nesse dia, que precede o Shabbath, acontece algo no monte.
Neste sexto dia de nossa vida, quando reconhecemos que há algo inacabado em nós e ao nosso redor, na maneira de viver e conviver, somos convidados a “subir” o monte, em companhia de outros.
Subir e tomar distância da agitação diária; subir para ter outra perspectiva da vida, acolher a experiência que nos é oferecida.
A Montanha nos faz perceber (a partir do alto) certos aspectos do vale que passam desapercebidos.
Permanecer no vale, sem ter momentos de Montanha, é fechar-nos, cair na rotina, não perceber novos horizontes, não alargar a cabeça e o coração, não ampliar a visão das coisas, da realidade, da história…
Nosso compromisso no vale deve ser fruto do discernimento acolhido na Montanha; esta nos devolve ao vale com outra visão, outro dinamismo; a Montanha ilumina, dá sentido e sabor à nossa vida no vale.
O vale é o lugar do compromisso, do trabalho, da construção…, mas iluminado pela experiência da Montanha. Todo gesto no vale tem plenitude, tem ressonâncias… a partir da Montanha.
A Montanha também nos revela que Deus continua “trabalhando” no vale da vida e nos impulsionando a “trabalhar” com Ele na mesma direção.
Como seguidores(as) de Jesus, devemos saber criar, em nossas vidas, espaço e momentos de Montanha (plenitude, silêncio, interioridade, escuta, discernimento); isso possibilita uma prática eficaz, um compromisso duradouro, uma decisão enraizada, uma presença transformadora nos “vale da vida”.
Subir à Montanha nos possibilita ler os horizontes e perceber se estamos caminhando na direção certa; isso implica tomar distância do ritmo diário, descobrir novos caminhos e novas decisões…
É na montanha que temos mais sensibilidade para escutar a voz do Senhor: “este(a) é o(a) meu(minha) filho(a) amado(a). A experiência do amor incondicional de Deus derruba grossos muros, arranca nossas máscaras, revela-nos quanto valemos aos Seus olhos e dá-nos uma nova liberdade para sermos nós mesmos.
Na Montanha, somos olhados por Ele em profundidade, e esse olhar revela nossa verdade mais original, nossa identidade mais profunda.
Trata-se de um olhar de aceitação, de amor, que nos faz descobrir o quanto valemos, que nos chama à vida, que nos livra do mundo de sombras, medos e inseguranças, que nos faz descobrir o gosto de viver sem máscaras, como alguém respirando ar puro.
Rostos resplandecentes, luz, vestes luminosas: a partir da Luz, a partir de Deus, todas as realidades humanas são vistas de maneira diferente, contemplativa.
Cedo ou tarde, todos corremos o risco de nos instalarmos na vida, buscando o refúgio cômodo que nos permita viver tranquilos, sem sobressaltos ou preocupações, renunciando a qualquer outra aspiração.
A humanidade de Jesus deixa transparecer a proximidade de Deus. O Pai se revela presente na humanidade de Jesus. Por isso, seu rosto era luminoso como o sol. “Eu sou a luz.”
Jesus era totalmente luz porque Deus o inundava; esse é o ponto de partida para Ele e para nós. Não devemos esperar nenhuma transfiguração, mas descobrir nosso ser não desfigurado. Já somos “transfigurados”, e não sabíamos. Não temos de caminhar para uma meta fantástica que nos prometem, mas descobrir já, em cada um de nós, o mais sublime dom, o próprio Deus. Somos transfigurados porque somos habitados por uma Presença, sempre providente e cuidadosa.
Sabemos, por experiência, que há um modo de “instalar-nos” que pode ser falsamente reforçado com “tons cristãos”. É a eterna tentação de Pedro que nos espreita sempre: “construir tendas no alto da montanha”. Ou seja, buscar na religião um bem-estar interior, fechando-nos em práticas “piegas”, ritos estéreis, devoções vazias…, fugindo da responsabilidade de construir uma convivência mais humana, um compromisso solidário e uma atuação em favor da transformação da realidade, tão injusta e tão desumana. É preciso também “transfigurar” nossa vivência religiosa e “descer” da montanha para prolongar o modo de ser e viver de Jesus junto aos marginalizados e excluídos.
A mensagem de Jesus é clara. Uma experiência religiosa não é verdadeiramente cristã se nos isola dos irmãos, se nos instala comodamente na vida e nos afasta do serviço aos mais necessitados.
Essa transfiguração interna se revela também na transfiguração das nossas atividades cotidianas mais comuns e nos encontros com os outros.
Como seres humanos, fazemos muitas coisas que os animais fazem, mas fazemo-las de maneira diferente e com sentidos mais profundos: comemos, mas nossa refeição torna-se encontro, festa, celebração; transfiguramos o alimento. Trabalhamos, mas como uma intenção nobre, com uma inspiração que transcende o próprio trabalho. Convivemos, mas vamos além da proteção grupal: transfiguramos as relações, os encontros, os diferentes laços humanos. Nossa sexualidade não é mera genitalidade, mas afeto e amor; transfiguramos a dimensão afetiva humana. Viver humanamente é transfigurar a existência.
A transfiguração é uma vivência luminosa, um ver a vida a partir da perspectiva de Deus. Na vida, temos de ter um pouco mais de lucidez e de sensatez para olhar em profundidade, para transfigurar as realidades cotidianas: uma experiência de elevação, de sentimentos “oceânicos”, de uma consolação intensa…
Talvez isso já tenha ocorrido alguma vez quando escutamos uma música, vimos a bondade de uma pessoa, a fidelidade silenciosa no trabalho, a leitura de um salmo ou uma poesia, a contemplação da natureza, etc. Tantas vezes vemos as mesmas realidades cotidianas e, num belo dia, de maneira surpreendente, tais realidades provocam um impacto profundo em nós e, assim, caímos na conta de aspectos e valores aos quais não éramos conscientes. Muitas vezes, quando nos encontramos com determinadas pessoas, “não vemos nada”, não transluzem nada; outras vezes, encontramos uma pessoa simples, humilde, que transmite luz, bondade, proximidade… São vivências transfiguradas.
Texto bíblico: Mt 17,1-9
Na oração: a voz do céu, a voz que ressoa no interior de cada um é de amor: “este(a) é meu(minha) filho(a) amado(a)”. Deus se compraz em seu Filho e em nós, que também somos seus filhos(as). O melhor que pode nos acontecer é que nos sintamos queridos(as), amados(as) e acolhidos(as) por Deus.
– A oração faz emergir à consciência uma nova imagem de nós mesmos e indica com o dedo uma área da nossa personalidade que necessita ser transfigurada com criatividade; ela promove um desenvolvimento criativo, eliminando a distância entre a imagem real e as falsas imagens que habitam o nosso interior.
– Através do encontro com o Senhor, no silêncio da montanha, a oração revela quem somos realmente e amplia nossa vida para além de nossas pequenas fronteiras. Com efeito, orar é aproximar-nos da “verdade que nos faz livres”; livres para sermos “nós mesmos”, chegar a ser aquilo para o qual somos chamados a ser.
Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).
Imagem principal: Artem Peretiatko (Istock).

