“Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia…” (Mt 4,13)
É muito importante para Mateus deixar claro que Jesus começa sua missão longe de Jerusalém, do templo, das autoridades religiosas, desconectando o ministério d’Ele de toda instituição religiosa.
Mas, ao mesmo tempo, quer deixar claro que a pregação de Jesus está em sintonia com a de João Batista, iniciando as duas com o mesmo apelo: “Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos céus”.
O evangelista Mateus dedica um especial cuidado em descrever o cenário no qual Jesus vai fazer sua aparição pública. Apaga-se a voz do Batista, e as pessoas começam a escutar a voz nova de Jesus. Desaparece a paisagem seca e sombria do deserto para dar lugar ao verdor e beleza da Galileia.
Jesus abandona Nazaré e se desloca a Cafarnaum, à margem do lago de Genesaré. Tudo sugere o aparecimento de uma vida nova. Galileia é cruzamento de caminhos; Cafarnaum, uma cidade aberta ao mar. A partir daqui, a salvação chegará a todos os povos.
Estamos, portanto, no início da vida pública de Jesus. O evangelho deste domingo nos apresenta cenas em um único relato: 1. A mensagem inicial de Jesus: “Convertei-vos, porque está próximo o reino dos céus”; 2. A eleição dos primeiros discípulos: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores do humano”; 3. Breve prelúdio-resumo do que vai ser a missão de Jesus: “Ele percorria por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, proclamando a Boa Notícia do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo”.
Com sua presença inspiradora, o anúncio da Boa Notícia e o compromisso em favor da vida, Jesus torna visível a realização do Reinado de Deus na terra.
Tudo começou nas periferias da Galileia, junto àqueles que viviam no mundo da exclusão: os pagãos, os perdidos, os extraviados e desgarrados, os enfermos, os necessitados… Sobre a terra há sombras de morte; reina a injustiça, a violência, a exploração… A vida não pode crescer; há divisões e conflitos nas relações. Aqui não reina o Pai. No entanto, em meio às trevas, o povo começa a ver uma nova luz; entre as sombras da morte, começa a brilhar uma forte luz. Isso é sempre Jesus: uma Luz que brilha na escuridão do mundo.
Jesus sabia para que e para quem estava no mundo: aliviar o sofrimento das pessoas, abrir um horizonte de sentido àqueles que estavam excluídos, despertar uma nova esperança para os marginalizados…
Vida iluminada, inspirada e cheia de sentido.
É nesse contexto “periférico” que Jesus começa sua pregação itinerante com um forte grito: “Convertei-vos, porque o reino de Deus está próximo”. “Convertei-vos”: essa é sua primeira palavra; é a hora da conversão; é preciso abrir-se à novidade do Reino de Deus; não permanecer sentados nas trevas, mas caminhar na luz. A expressão “meta-noeo” (de onde vem “metanoya” – conversão) significa originariamente “mudar de opinião”, “retificar”, “mudar de mentalidade”. Assim, o termo grego “metanoya” fala de “outro modo de conhecer” que não é o habitual (do ego).
Contrariamente às concepções habituais que aparecem nas pregações e nos catecismos, que atribuem a esse termo conotações de mortificação, remorso ou culpa, o termo original grego aponta para algo mais profundo. Trata-se de um convite para sair da rotina mental, da inércia do já conhecido ou da prisão de nossos pensamentos, falsas visões, pré-juízos, petrificações legalistas e moralistas…; só assim seremos capazes de “ver de outra maneira”; isso nos permitirá captar precisamente a realidade do Reino, ou seja, aquilo que constitui o mais secreto da realidade e nosso núcleo mais profundo. Na verdade, conversão significa nos deixar conduzir por Aquela presença que nos habita, nos inspira e nos abre a uma vida nova.
Nesse sentido, converter-nos implica esvaziar-nos do “ego”, deixar de viver girando em volta dele, como se tratasse de nossa identidade verdadeira, e começar a olhar a realidade – a nós mesmos, os outros, o mundo – a partir de quem realmente somos, em profunda sintonia com Aquele que tudo habita e tudo unifica.
Assim entendida, a conversão é a maneira original de ver e viver daqueles que se inspiram na realidade do Reino, daqueles que tomam distância de seu ego, porque compreendem que se identificar com ele é um engano que faz “perder a vida”, como diz o próprio Jesus.
No seu sentido mais inspirador, “metanoia” não significa mudanças de hábitos e atos, mas “troca de Senhor”; é preciso ter a coragem de nos perguntar: “quem é o senhor que comanda a nossa vida?”. São os falsos senhores, nosso ego inflado, nossos ídolos…? Ou Aquele que nos habita e nos torna seres transparentes, descentrados, abertos ao novo, sintonizados com a realidade…
Depois do apelo à conversão, a segunda cena do evangelho deste domingo é a eleição dos primeiros discípulos: “Vinde e segui-me”. Desde o início de sua vida pública, Jesus quis incorporar colaboradores(as) na missão de construir o Reinado de Deus na terra. Para ajudá-lo nesta missão, Jesus chamou seus primeiros discípulos e continua nos convocando hoje, pois o reinado de Deus está inacabado, enquanto houver um ser humano bloqueado em sua vida e que necessita ser despertado para despertar o “melhor” em seu interior: “o Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17,21).
Jesus iniciou um movimento de vida, um movimento humanizador. Ele não estava preocupado em constituir uma nova religião, renovar o culto, apresentar uma doutrina mais rígida…
Ele elegeu seus discípulos para que o acompanhassem em sua itinerância e lhe ajudassem na implantação e desenvolvimento de seu projeto. A partir desse momento, no movimento dos seguidores de Jesus, a vocação e a missão no Reino são inseparáveis. O diferencial desse movimento é que todos trabalhem em companhia-comunidade, em ajuda mútua, em equipe.
Naquele primeiro encontro com os discípulos à beira do mar, Jesus não propôs projetos abstratos: propôs encontros com pessoas, para que nesses encontros brotasse o mais profundo e nobre que existe em cada ser humano. É preciso “pescar o humano”, porque em cada um deles está a fonte das transformações, em cada um deles pulsa o futuro.
O final do evangelho de hoje é um resumo-antecipação das atividades de Jesus durante sua vida pública: ensinar e cuidar. Palavra e cura; ditos e atos. Seus ensinamentos explicam o mistério do Reino. As curas são antecipação e “sinais” do Reino. Ele passou a vida fazendo o bem e dizendo como se faz o bem. Como bom mestre, ensina a todos nós, seus discípulos e seguidores, a fazer o mesmo e fazer como Ele o fez.
Nossa missão é continuar a obra começada por Ele. É uma questão de atitudes e comportamentos identificados com as atitudes e comportamentos de Jesus. Nós devemos tornar presente o Reinado de Deus com nossa vida, sermos transparência da vida de Jesus, ou seja, cuidar e aliviar o sofrimento humano, sanear a vida, trabalhar por uma vida mais sadia, digna e ditosa para todos. Essa é a vida que Deus quer para todos. Nós hoje somos sua providência, seu amor e cuidado, sua presença em meio às pessoas.
Jesus continua nos convidando a trabalhar com Ele e como Ele, a viver como Ele, a ter os critérios e os valores d’Ele. Ele continua convocando pessoas que têm espírito de audácia, de energia, de criatividade, de luta, de participação, porque Deus não nos deu espírito de timidez, de covardia, de fuga… O encontro com Ele reacende as brasas da esperança, ainda latentes em nosso interior; seu modo de ser e agir alimenta as raízes de nossa existência…
Texto bíblico: Mt 4,12-23
Na oração: Jesus continua transitando pelos nossos montes e lagos, com uma proposta ousada de vida (Reino) e nos convocando para compartilhar com Ele desse mesmo projeto.
– A que me sinto chamado(a) hoje? Minha vivência cristã está centrada no seguimento e identificação com Jesus ou se reduz a algumas “práticas religiosas” estéreis e sem compromisso com a transformação da realidade?
– Como “pescar o humano” no seu contexto familiar, social e religioso, marcado por tanta intolerância, ódio e preconceito? Onde está a verdadeira identidade da vida cristã?
Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).
Imagem principal: Beyzaa Yurtkuran (Pexels)

