Um ato de amor e generosidade

“Você deu um belo e saudável rim para sua irmã”, disse o cirurgião à irmã Arnolda Kavanamur, que, em meio à pandemia de covid-19, decidiu doar um de seus rins para a irmã Kristina Lajar. Ambas são irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS), vivendo em Chicago, Estados Unidos.

No Brasil, 27 de setembro, é Dia Nacional de Doação de Órgãos. Essa data foi instituída pela Lei nº 11.584/2007, com o objetivo de conscientizar a sociedade para a importância da doação de órgãos.

Pré-operatório

Eis a história de Ir. Arnolda, natural de Papua-Nova Guiné. Ela chegou aos Estados Unidos em 2013. Lá conheceu a Ir. Kristina, natural da Indonésia. As duas religiosas, longe de suas famílias e fora de sua pátria, viveram uma experiência de fé, amor e doação que marcou a vida da Congregação nos 132 anos de presença em mais de 50 países.

“A generosidade requer coragem para agir”, afirma Ir. Arnolda, ao compartilhar sua jornada de transplante do rim. Para ela, nossa escuta atenta da vontade de Deus nos orienta a tomar decisões que nos levam à felicidade, à realização e à doação gratuita.

A Ir. Kristina Lajar foi diagnosticada com insuficiência renal em 2013 e fazia diálise peritoneal todos os dias. Ficava ligada à máquina de 3 a 8 horas, todas as noites, havia seis anos. Era doloroso vê-la acamada com frequência”, relata a doadora. A Ir. Arnolda, recém-chegada de outro continente, logo tomou conhecimento da situação da Ir. Kristina. Foi no momento de um passeio pelos jardins do Convento Espírito Santo, em Northfield, Illinois, que a Ir. Arnolda sentiu e expressou seu desejo de ajudar a Ir. Kristina. Porém, como a Ir. Kristina não estava preparada, encontrou dificuldade em aceitar a proposta de sua coirmã.

Em setembro de 2019, quando Ir. Arnolda retornava de sua terra, Papua-Nova Guiné, passou uns dias no Convento, antes de partir para sua missão, em São Cristóvão e Neves, no Caribe. Novamente foi passear pelo jardim do Convento. O pensamento em doar o rim para a Ir. Kristina veio novamente à tona. Com o resultado dos exames feitos, soube-se que tinham o mesmo tipo de sangue. Irmã Arnolda se dispôs a doar seu rim, dizendo: “Talvez eu possa ajudar”. E, depois de rezar, voltou a falar com Ir. Kristina e decidiram conversar com a coordenadora provincial.

Pós-operatório

Após conversa e consentimento, fez-se contato com o Centro de Transplante de Rins da Universidade de Chicago. Realizados os trâmites legais, em dezembro de 2019, a irmã doadora foi chamada para realizar o processo de avaliação de doadores vivos, envolvendo análises médicas, psicossociais, consentimento livre, informações e cuidados pré e pós-operatórios. Após a avaliação da doadora, veio a grande notícia: “Eu era compatível com Kristina!”, celebra Ir. Arnolda.

Naquele momento, o coronavírus já estava se espalhando pelos países, incluindo os EUA. O governador de Illinois, J. B. Pritzker, emitiu uma nota de “permanência em casa”. Com a pandemia, foram adiadas, por tempo indeterminado, todas as cirurgias eletivas. A Ir. Kristina continuava com o tratamento, porém cada vez mais debilitada.

Finalmente, em 19 de maio de 2020, terminou a longa espera. “Às seis horas da manhã, fui submetida à cirurgia. Quando eu estava na metade da cirurgia, a irmã Kristina foi chamada e ficou em serviço cirúrgico… Graças a Deus, foi um sucesso”, respira aliviada Ir. Arnolda.

A Ir. Arnolda conta que a decisão nem sempre foi tranquila. “Houve muitos altos e baixos ao longo do caminho; ansiedades e estresse, medo de não ser compatível. Mas sempre que há uma reposta generosa a um ‘chamado à ação’, Deus está sempre presente. Em resumo, a experiência foi estressante, mas a confiança plena em Deus me fez acreditar que Ele estava no controle o tempo todo.”

O profundo ato de bondade salvou a vida de Ir. Kristina e transformou a vida de Ir. Arnolda. Ela lembra sentir-se mais forte na fé e com vida mais significativa. E conclui seu testemunho: “Todos os dias, eu me encontro buscando viver autenticamente meu chamado e ser feliz onde Deus me quer. Estou convencida de que o que fiz por Ir. Kristina foi uma intervenção de Deus. Ele lhe deu uma segunda chance de viver, porque Ele a ama muito”.

“Embora um pedaço de mim esteja faltando para sempre, estarei sempre grata por esse pedaço de mim estar dando vida à minha irmã. Ela será para sempre parte de mim,” conclui a Ir. Arnolda.

Ir. Zélia Cordeiro, SSpS
Coordenadora de Comunicação na Província Brasil Sul das missionárias servas do Espírito Santo (BRS), mestra em Gestão e Negócios pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), curso com dupla titulação, vinculado à Université de Poitiers, na França, com dissertação na área de Desenvolvimento de Liderança.

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