Via-Sacra de cada um

No tempo da Quaresma, é costume se fazer a Via-Sacra (“caminho sagrado”), em que se reflete sobre a prisão, condenação e crucificação de Jesus. Em cada “estação”, contempla-se seu sofrimento. É um ato piedoso que nos põe em contato com a dor tão presente também na vida de cada um.

São 14 “estações” (paradas de reflexão) simbolizadoras de todas as dores humanas. Desde a perseguição dos inocentes, à prisão injusta, à condenação prepotente, à crucificação da vida. Via-Sacra, um caminho que percorre a trajetória humana. Ali se encontram os gestos mais desumanos, grosseiros e impiedosos perpetrados pelas “autoridades” que condenam, e executadas pelas mãos dos subalternos, com chicotes e blasfêmias, descarregando o ódio do mundo sobre um inocente. São cenas grotescas que revelam a impiedade de que somos capazes.

Ali, contudo, estão também os gestos de grandeza presentes no humilde camponês, Simão de Cirene, que dispõe seu ombro para aliviar um pouco o de Jesus. Está no lamento das mulheres sensíveis à dor diante da qual se sentem impotentes ante o jugo sádico. Fica na coragem da mulher que rompe o cortejo para enxugar o rosto de Jesus, que retribui seu gesto, oferecendo sua face, estampando-a na toalha que o toca. Nas três quedas de Jesus ao chão, revela-se, ao mesmo tempo, o limite das forças humanas e a coragem de se levantar e seguir até o fim na missão de salvar. O peso da cruz quase mata Jesus antes da hora programada pelos algozes.

Jesus, em sua liberdade, deixa-se crucificar e tornar-se espetáculo para muitos dos que gritavam “Crucifica-o, crucifica-o!” e “Salva-te a ti mesmo, se és filho de Deus”. Gritos que simulam vitória, mas que escondem culpas por condenarem um inocente. Conferem a morte de Jesus com uma lança que abre seu peito, de onde jorram sangue e água.

É ali que o grito de Jesus clama ao Pai por perdão para aqueles que “não sabem o que fazem”. Ali há uma entrega solidária e voluntária nas mãos do Pai, que recebe o Espírito do Filho. É uma hora de trevas sobre a terra, o mal parece ter vencido. É, porém, uma escuridão que passa, porque será iluminada pela vida que ressurge.

A Via-Sacra é um caminho de reflexão sobre o que conta e o que não conta no percurso que fazemos. Ninguém está isento do sofrimento. Cada um, olhando para sua história pessoal, vai encontrar as estações de sua Via-Sacra. Os sofrimentos retratados em muitos tipos de dores.

Há aqueles sofridos, desde muito cedo, por nascituros que sofrem pelo abandono daqueles mais próximos que deviam cuidar. Quantas crianças deixadas órfãos antes do tempo; quantos jovens mutilados pelas condições de pobreza, sem esperança de futuro; quantas famílias arrancadas de seu ambiente pelas guerras, pagando um preço alto pela ambição e presunção dos mais fortes.

Quantas pessoas injustiçadas nos tribunais, quantas sentenças interesseiras que condenam sem piedade; quantas mães que choram as desgraças dos filhos que sucumbiram às tentações das drogas e dos vícios; quantos lares desfeitos pelas incompreensões e imaturidades entre os responsáveis por mantê-los unidos. Quantos algozes que se comprazem do sofrimento alheio, com julgamento sem conhecimento de causa.

Quantos gritos de desespero diante das tragédias humanas; quanto choro de mulheres violentadas que sofrem no silêncio, movidas pelo medo do mais forte. Quantas injustiças sofridas por aqueles sem condição de vida digna, não tendo onde trabalhar nem onde viver sob um teto.

Quantas pessoas sofrem suas doenças curáveis, mas, por falta de recursos, definham até a morte precoce. Quantos outros se deparam com aquelas incuráveis que prostam e desanimam e minam a esperança. Quantas Vias-Sacras encontramos refletidas nos rostos sofridos que desfilam nas ruas de nossas cidades e de nosso mundo. Quanto sofrimento na vida daqueles rejeitados, devido à cor de sua pele ou de sua crença. Quantos sofrimentos carregados no silêncio do coração por causa do medo da rejeição ou condenação sem julgamento. Quantas culpas inconscientes assumidas sem que sejam responsáveis por elas.

As estações da Via-Sacra humana comportam bem mais de 14! Nas 14 da Via-Sacra, está a síntese de todas as maldades, conhecidas e desconhecidas, mas vividas na pele de alguém. Jesus carregou sobre si todas as dores humanas.

Não é sem significado que a Sexta-Feira Santa é o dia mais concorrido nas celebrações da Paixão. Ali são projetadas todas as cruzes que cada um carrega. Buscam na de Jesus um sentido para seus sofrimentos e um pouco de consolo, vendo-se solidários com Ele no percurso do Calvário.

O beijo que se dá em “adoração a Jesus na cruz” reflete o amor, a esperança e a gratidão pelo gesto salvador d’Ele. É um reconhecimento diante do “Lenho da cruz, do qual pendeu a salvação do mundo”.

Via-Sacra, caminho das cruzes humanas que buscam redenção naquela vivida por Jesus. Perseverando até o fim, vai encontrar a vida nova no Ressuscitado.

A Via-Sacra convida cada um a carregar sua “Via Crucis” no caminho do Calvário, com Jesus, e então seu sofrimento terá algum sentido e não será em vão. Na Via-Sacra de Jesus, encontre a sua redimida!

 

 

Padre Deolino Pedro Baldissera, SDS

 

 

 

 

Imagem principal: Frank Wagner (Istock).

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *