Vidas preciosas: uma homenagem às vítimas da pandemia

O ano de 2020 ficará marcado na história devido ao inesquecível surto do novo coronavírus. Centenas de milhares de pessoas em todo o mundo morreram em meio à pandemia, tanto pela doença conhecida como covid-19 quanto por outras enfermidades.

Cada vida tem valor e é importante para o mundo. Um ato memorial justifica e honra o significado de uma vida única e bela. Neste dia, lembramos e homenageamos as vítimas da pandemia. O físico pode ter acabado, mas o vínculo permanece. Um memorial é momento de celebrar uma pessoa e o sentimento que por ela mantemos. É dizer adeus a um antigo relacionamento, relembrar uma vida bem vivida e mantê-la acesa por meio de lembranças, histórias, por dizer o nome da pessoa querida.

A morte tem o poder de apenas tirar o físico, mas a vida permanece para sempre na partilha das histórias de nossos amados. Sim, temos a capacidade de manter vivos nossos entes queridos, por nossas memórias e nossa voz, e esse é, de fato, um poder incrível. “Deixem suas vidas permanecerem em nossas memórias e nossa dor em uma música.”

Quando uma pessoa perde alguém querido, é comum realizar um funeral para celebrar sua vida. Mas, com o coronavírus se espalhando rapidamente, apenas os ligados a serviços fúnebres, enquanto trabalham silenciosamente nos bastidores, testemunham o tamanho da crise, chocados com o número de corpos deixados para trás. Funerais alheios a tradições e familiares e amigos privados de participar dos ritos de despedida tornam mais difícil a superação do luto.

Lembro-me de quando minha avó morreu. Eu olhava para o rosto dela e tentava memorizar cada detalhe, sabendo que seria a última vez antes de ela ser sepultada. Na pandemia, a obrigação do distanciamento não tem dado a oportunidade de estar ao lado dos moribundos ou de cumprirem-se os ritos fúnebres.

Sempre que vou de férias, uma coisa que gosto de fazer é folhear as páginas dos álbuns de fotos. Desejo conhecer as fotografias adicionadas durante minha ausência, então me sento com minha mãe para ouvir a história das novas imagens ou das recuperadas. Embora hoje tiremos milhares de fotos e as salvemos em nossos celulares, computadores, elas não podem ser comparadas às dos álbuns. 

Nas últimas férias, quando pude visitar minha família, exerci minha atividade favorita de folhear aquelas páginas. Encontrei a foto de minha infância. Fiquei muito surpresa ao me ver como uma criança pequena, em um vestido marrom estampado com flores brancas, e meu pai me segurando… A foto contava a história do “tempo”. Para uma criança, o tempo é eterno, mas agora, como adulta, interpreto como passado. Meu sentimento principal quando olhei aquelas fotos foi de tristeza: meu pai falecido… O tempo passa, o momento passa ao clique do obturador. Mas essas imagens são uma fonte de memórias ligadas à tristeza. 

Ao testemunhar a morte de um querido, você percebe que o tempo não é eterno e nossos amados também partem. “Dias e noites passam, também a vida como as árvores testemunham as estações da vida.”

“Para tudo há uma ocasião e um tempo para cada propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou” (Eclesiastes 3,1-2). 

Quando alguém morre, somos forçados a refletir sobre o significado da vida e da morte. Somos obrigados a reconhecer e aceitar a realidade da finitude. Ao enfrentar esse fato, muitas vezes, restam as perguntas: “Por que eles morreram?”, “Por que isso está acontecendo comigo?”. A verdade é que todo mundo morre. Um rito fúnebre pode nos ajudar a lembrar que morrer é inevitável, ao mesmo tempo em que nos encoraja a viver nossas vidas com zelo e paixão, porque ninguém vive para sempre e não nos foi prometido outro dia. Reconhecer a morte e a necessidade de viver uma vida plena oferece esperança para os vivos.

Assista ao vídeo em homenagem às vítimas da pandemia.

Ir.Elizabeth Rani, é missionária serva do espírito santo, nascida na Índia e há um ano no Brasil. Estudou Pedagogia e Literatura Inglesa e faz parte
da Equipe de Comunicação da Província.