Estamos nos aproximando da celebração de mais uma Páscoa. É a celebração central da fé cristã. Não há festa maior! Há a Páscoa judaica e a Páscoa cristã.
Nas celebrações da Páscoa judaica, memorizava-se a intervenção de Deus libertando o povo da escravidão do Egito. O sinal (marca) de sangue nos umbrais das portas indicava a identidade e a pertença ao povo escolhido. Ao receberem a ordem para preparar a saída, num cerimonial religioso, alimentaram-se comendo a carne de um cordeiro junto com ervas amargas, que, ao mesmo tempo, os fortalecia para o grande êxodo e sinalizava os sofrimentos que os acompanhariam. A passagem do anjo anunciador inundou de esperança a vida aprisionada pelo jugo egípcio. Deus estava cumprindo sua promessa de libertação.
O povo guiado por Moisés lançou-se a caminho, aceitando pagar o preço do percurso. Uma força o movia: a “esperança”! A esperança que também alimentara outrora a saída de Abraão para uma terra desconhecida. Uma nuvem que escondia a presença de Deus os guiava pelo deserto. Depois de uma geração inteira, 40 anos de travessia, finalmente chegaram ao destino. Para perpetuar tal acontecimento, anualmente, reunidos no Templo de Jerusalém, rememoravam, com alegria, os feitos do passado libertador, sacrificando animais e ofertando-os a Javé.
Nós, cristãos, ao celebrarmos a Páscoa, recordamos também um feito libertador. Diferente daquele geográfico dos hebreus, mas com alguns simbolismos daquele. Lá, o sacrifício foi o sangue de um cordeiro; na Páscoa cristã, o sangue foi o de Jesus. Lá, saiu-se da escravidão imposta pelo faraó; na dos cristãos, é uma libertação ainda mais incisiva, daquela do domínio do pecado. Foi uma intervenção direta do Filho de Deus, que aceitou pagar o preço, como um “goel”. Pagou o resgate (redimiu) e libertou do jugo do pecado (salvou). Não fosse assim, estaríamos ainda excomungados na relação com Deus.
Celebrar a Páscoa cristã não somente recorda essa decisão de Deus, movido por seu amor, de comprometer a vida do Filho com a missão de carregar sobre si todos os pecados da humanidade. O preço pago foi derramar seu sangue no patíbulo da cruz. Na cruz, ficou o sinal (marca) da “libertação” que restabeleceu a ponte para a comunhão com Deus na Ressurreição.
Toda vez que fazemos o sinal da cruz sobre nossa fronte, professamos nossa fé no gesto libertador de Jesus. Cada vez que o fazemos, recordamos nosso compromisso com sua causa.
Na Páscoa, fazemos esse memorial perene e eterno em que celebramos a Ressurreição, esperança e garantia da vida eterna e seu seguimento.
Na verdade, em cada Eucaristia que celebramos, revivemos a Páscoa de Jesus que se faz presente de maneira misteriosa ali no altar, no pão e vinho consagrados. É a presença invisível do mistério escondido sob os sinais de “pão e vinho”, aí transubstanciados em corpo e sangue.
A presença de Jesus na Eucaristia é profissão de fé dos cristãos, embora nem todos se extasiem diante de tal mistério. Como se comportar na presença de Deus? O que fazer com o corpo, a cabeça, o coração, os sentimentos, as emoções diante de tal realidade?
Nem sempre conseguimos ter a reverência profunda que o mistério exige. Nossas distrações, preocupações com outras coisas nos distanciam, dispersam ou quase nos tornam indiferentes. Às vezes, recebemos a comunhão sem nenhum preparo antecedente, entramos na fila, estendemos a mão, comungamos, tudo meio “robotizado”, para continuar depois tudo como estava antes.
Se a Eucaristia não nos transforma, ou, ao menos, nos desperta o desejo de ser mais íntimos de Deus e atentos à sua Palavra, então a Eucaristia pode se tornar um costume piedoso, mas pouco eficaz.
A Páscoa celebrada no tempo litúrgico anual é um momento propício para nos levar a uma fé e esperança mais profundas.
Não basta um sentimento ou até emoções ao participar das celebrações pascais, é necessário estabelecer um vínculo mais duradouro e transformador.
Páscoa é memorial dos fatos passados, mas é também um acontecimento presente. Nós confessamos que é um mistério de nossa fé. Sendo real e verdadeiro, então temos também a certeza de que Deus, em Jesus e no Espírito Santo, continua se manifestando no hoje histórico. A força do Ressuscitado continua agindo em nosso tempo, cabe a nós, à luz da Palavra de Deus, discernir seus sinais. Viver movidos por essa fé nos põe sempre a caminho e, na travessia de nossa vida, vamos encontrando obstáculos (“ervas amargas”!) a serem transpostos com nossa participação ativa e esperançosa.
O Ressuscitado repete continuamente: “Estarei convosco até o fim do mundo”! Não é mais uma nuvem teofânica que é o sinal de sua presença no meio de nós, mas sim a Eucaristia e a Palavra de Deus, que estão sempre ao alcance de nossas mãos e são sinais reais que dizem “Tomai e comei, tomai e bebei”. É Jesus quem afirma: “Eu sou aluz do mundo, quem comigo vai não anda nas trevas”.
Celebrar a Páscoa novamente é ocasião de renovar em nós a certeza de que já não somos mais escravos do pecado, e sim herdeiros da vida eterna. Boa Páscoa e viva a ressurreição!
Padre Deolino Pedro Baldissera, SDS
Imagem principal: Mltz (Istock) – Pantocrator (cúpula interna da Igreja de São João Crisóstomo, Bucareste, Romênia)
