Você é tolerante?

“Ninguém nasce odiando a cor de sua pele, origem ou religião.” (Nelson Mandela)

 

Você é tolerante ou intolerante? Como saber? Observe sua atitude diante de uma situação que nem sempre é agradável. Por exemplo: o que fazer diante do choro de um bebê com desconforto intestinal à noite ou durante uma viagem? No congestionamento de trânsito, quando todo mundo pensou em sair ao mesmo tempo para o trabalho ou para ir à praia durante as férias com a família? Pegar a senha no banco, ou na lotérica, ou no posto de saúde e, quando chega sua vez, surge alguém com prioridade e passa à sua frente? Haja paciência, não é? E quando a discussão sobre um determinado assunto é com alguém que não é da mesma opinião que a sua? Se você usa de sabedoria, então a virtude da tolerância é praticada.

Segundo alguns estudiosos, como André Comte-Sponville (1952), “A tolerância só intervém na falta de conhecimento”. Muitas vezes, nos sentimos no direito de proibir, de condenar ou de impedir alguém quando achamos que temos razão. Consequentemente, a prática da tolerância demonstra o quanto somos pouco capazes de ter respeito ou amor pelos adversários.

Como afirma o filósofo francês em sua obra Pequeno tratado sobre grandes virtudes (2009): “A tolerância […] é, pois, uma solução passável: à espera de melhor, isto é, à espera de que os homens possam se amar, ou simplesmente se conhecer e se compreender, demo-nos por felizes com que eles comecem a se suportar” (p. 188).

Nesse sentido, percebemos que a tolerância é, numa sociedade plural como a brasileira, uma das virtudes necessárias para a convivência humana. A diversidade social se faz presente em todos os ambientes que frequentamos, por isso é importante conhecermos as culturas existentes no Brasil e respeitá-las. Além de várias etnias que construíram a identidade de nosso País, o aumento de imigrantes contribui para novos olhares e costumes.

Ainda há, todavia, muita intolerância entre os indivíduos da população brasileira, como os fatos noticiados pelas mídias: entre as torcidas organizadas e jogadores, maus-tratos com entregadores e vizinhos em condomínios, desrespeito a igrejas, templos e terreiros em vários lugares do País. Para resgatar a História do Brasil, as Leis de números 10.639/2003 e 11.645/2008 estabelecem estudar nas escolas a formação do povo brasileiro a partir das culturas dos povos originários e africanos, de valorizar a diversidade e combater preconceitos, independentemente de datas comemorativas. No entanto, a população mais adulta continua arraigada a uma cultura arcaica, etnocêntrica, colonial.

O campo religioso procede das instituições tradicionais, muitas vezes, fragilizadas pelo individualismo e segmentos excludentes. Diante desse fato, a partir do sincretismo, causa estranheza ao desconhecido perante o tradicional. Os estudos das Ciências Sociais têm buscado compreender os grupos religiosos presentes na sociedade, neste período contemporâneo. De acordo com alguns estudiosos da religião, no Brasil, há uma “noção de trânsito” religioso. A consequência é a fragilização das instituições e de seus mecanismos de transmissão da tradição. Cada indivíduo se sente capacitado para “montar sua religião” (Giumbelli, 2014, p. 180).

Para conscientizar sobre o respeito, a valorização e a pluralidade religiosa entre todos, em um país laico como o Brasil, foi instituída a data 21 de janeiro como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, pela Lei 11.635 de 2007.

Para todos os indivíduos expressarem sua crença de modo fraternal, ser tolerante com a crença ou não crença do semelhante é uma prática do bem, como já observava I. Kant (1724-1804). Assim, a empatia e os estudos sobre a diversidade religiosa devem promover a paz entre todos os que creem ou não.

Uma carta do Apóstolo Paulo exorta: “Não deveis nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei. […] A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é a Lei” (Romanos 13,8.10). Podemos concluir, também, que a caridade é ser tolerante.

Assim, recorrendo a Nelson Mandela (1918-2013), que observou que “ninguém nasce odiando”, praticar a tolerância com o outro, seja de qual religião for, só engrandece o ser humano. Respeitar as “práticas religiosas” no espaço público é exercer a cidadania consciente. Quando possível, aproveite para fazer um “turismo religioso”, seja em templos católicos, evangélicos, budistas, judaicos, de matrizes africanas, xintoístas e em tantas outras culturas. Além de valorizar o Transcendente e apreciar a arte, a busca pela paz é a meta de toda pessoa.

 

 

Maria Terezinha Corrêa

Antropóloga e filósofa, líder na Pastoral da Pessoa Idosa.

 

 

Imagem principal: Israel Torres (Pexels)

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