O tema da moradia, quando atravessado pelo sentido da fraternidade, deixa de ser uma questão pura e meramente urbanística e se torna um imperativo ético e espiritual. No âmago da fé, a “casa” não é apenas um teto, mas assume o sentido de “lar”, como é um espaço do sagrado, da convivência, do acolhimento e do respeito, como sacrário da dignidade humana.
O direito ao “lugar” é uma realidade social da habitação no Brasil, e isso nos impulsiona a uma profunda reflexão a respeito desta ferida na fraternidade universal. O saudoso Papa Francisco, em sua encíclica Fratelli Tutti (2020), lembra-nos de que a verdadeira fraternidade exige o reconhecimento da dignidade de cada pessoa; o que se torna impossível quando o direito básico a um lar é negado.
Para a Igreja Católica e diversas tradições religiosas, a família constitui-se como a “Igreja Doméstica”. Porém, sem um espaço digno, a estrutura familiar é fragilizada. A falta de moradia ou a precariedade habitacional impede que pais/responsáveis possam exercer, plenamente, sua missão de cuidado, de afeto e proteção.
O conflito surge das ambições pelo lucro que se sobrepõem ao valor social do lar. Uma família sem teto é uma família que, pela indiferença/exclusão social, foi violada em sua “sagrada intimidade”.
A juventude que cresce em contextos de vulnerabilidade habitacional enfrenta o desafio em seu próprio projeto de vida, em sonhar e planejar um futuro, onde o “presente” é incerto. Assim, as discriminações, os preconceitos e a falta de oportunidade acabam por influenciar na construção da identidade.
Se a sociedade não oferece horizontes e caminhos a serem vislumbrados pelos jovens, estes não conseguirão ter um lugar seguro (e esse lugar para além do teto, também o lugar do acolhimento, do respeito e do afeto), ela os empurra para as margens.
A fraternidade, aqui, deve se traduzir em políticas públicas que vejam o jovem não como um problema estatístico, mas como um protagonista que precisa de um solo firme (físico, social, emocional e afetivo) para florescer.
Podemos, nesta reflexão, afirmar a Face de Cristo na rua, quando a realidade dos marginalizados, aqueles que vivem em ocupações, favelas sem saneamento ou sob viadutos, é o maior teste para a nossa religiosidade. Citando a passagem bíblica de Mateus (25,35), “Eu era peregrino e me acolhestes”, percebemos que a moradia é, também, um critério de julgamento espiritual.
A exclusão habitacional é uma forma de exílio dentro da própria pátria. A fraternidade cristã nos obriga a sair da zona de conforto para lutar por uma “ecologia integral”, na qual o ser humano e seu habitat sejam preservados e respeitados.
Não é possível a instalação de uma fraternidade real sem justiça social. A fé que não se incomoda, não se indigna e não se insatisfaz com a pessoa que dorme ao “desamparo” é uma fé desarmada.
A moradia deve ser entendida como o espaço da comunhão, onde a família se alimenta da sua condição de “lar” e se fortalece, onde o jovem se desenvolve e o marginalizado é reintegrado à mesa dos filhos de Deus.
“A posse da terra e a moradia são direitos sagrados. Se eu falo disso, alguns dizem que o Papa é comunista. Não entendem que o amor aos pobres está no centro do Evangelho” (Papa Francisco, 28 de outubro de 2014).
Donizeti Pessi
Esposo da Marcela, pai da Sofia (15 anos) e da Ana (11 anos). Professor no Colégio e na Faculdade Sant’Ana, em Ponta Grossa-PR. Professor na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
Imagem principal: luoman (Istock).
