Ascensão: subir à Galileia, descer ao mundo todo

“Os Onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado” (Mt 28,16)

 

Jesus ressuscita e volta à Galileia para reiniciar seu caminho, mas agora através de seus discípulos. Este é o evangelho da Páscoa de Mateus, que se celebra no Monte da Galileia e se estende a todo o mundo (a todas as nações).

No Evangelho de hoje, a despedida de Jesus é descrita com singeleza; não produz tristeza, mas alegre confiança, enquanto os discípulos se preparam na oração para assumir a missão.

Mateus descreve a despedida de Jesus traçando as linhas de força que hão de orientar os seus discípulos para sempre, as balizas que hão de marcar a sua Igreja para cumprir fielmente sua missão.

O ponto de partida é a Galileia. Ali Jesus os convoca e os envia. A morte e a ressurreição não podem fazê-los esquecer o que foi vivido com Jesus na Galileia. Ali o escutaram falar de Deus com parábolas comovedoras; ali o viram aliviando o sofrimento humano, oferecendo o perdão de Deus e acolhendo os mais esquecidos. É isso precisamente que eles deverão continuar transmitindo.

O relato de Mateus é um prodígio de síntese teológica. Não há nele nenhuma alusão à subida ao céu: Ele não se vai e nem nos deixa. Consta simplesmente de uma localização dada, uma proclamação de envio com autoridade, a manifestação de uma presença contínua. Situar a cena em um monte é uma indicação suficiente de que o que lhe interessa não é o lugar em si, mas o simbolismo. O monte é o espaço do divino, onde está Deus e onde também quer situar Jesus.

Recordemos o sentido bíblico das montanhas como espaços de revelação nas velhas tradições dos povos e no mesmo Antigo Testamento (Sinai). Mateus destacou o tema ao situar a grande mensagem de Jesus sobre o Monte (Mt 5,1). Pois bem, reassumindo o valor daquela passagem e do lugar onde Jesus viveu a experiência pascal da transfiguração (Mt 17,1-8), nosso texto afirma que os discípulos encontraram Jesus na montanha do envio.

Essa montanha é o novo e conclusivo Sinai: é lugar e sinal de revelação de Deus para a humanidade, essa montanha é o mesmo Cristo. Como verdadeiro e novo povo israelita, o grupo dos seguidores de Jesus, movido pelas mulheres que fizeram chegar até eles o anúncio da ressurreição, subiu à altura de Deus, para encontrar ali o Senhor pascal. Essa foi a peregrinação definitiva, o grande ascenso que define e ilumina a história de toda a humanidade.

O fato de Mateus situar o último relato do encontro com o Ressuscitado na Galileia tem também um significado muito importante. Quer ressaltar que Judeia (Jerusalém) havia rejeitado a Jesus e não era mais o lugar onde alguém devia encontrar-se com Deus.

Jesus está de pé no monte da Galileia, ou seja, na terra de seu amor pelos últimos e de seu compromisso com os mais pobres; a partir dali, envia a todos (os discípulos e todos nós), dizendo: “ide ao mundo inteiro”, fazei com que todos os povos descubram o Caminho da Boa Notícia, a Verdade transparente e a Vida oblativa; oferecei a todos o dom do Deus (Pai, Filho, Espírito Santo) que quer a salvação de todos; ensinai-os a viver segundo o evangelho (perdão, amor mútuo, comunhão de vida, presença compassiva…).

Aqui, tudo acaba, para começar tudo de novo, de forma renovada.

O caminho de Jesus, culminação da história israelita, veio desembocar nesta grande subida. Procuremos fixar a imaginação: um grupo de discípulos vai subindo e subindo. Libertaram-se de tudo; deixaram que o mundo ficasse a seus pés, vão perdendo o que ficou embaixo.

Conforme a palavra de Jesus, guiados pela experiência e ministério de algumas mulheres, eles vão subindo, num gesto que condensa e culmina nossa história. Num primeiro momento parece que tudo fica abaixo…, mas logo descobrimos que tudo está presente. A partir dali, veem-se todas as coisas, e Jesus envia os seus de novo, de um modo mais profundo, para fazer chegar seu evangelho em todos os vales e planícies do mundo. Esta é a Montanha de sempre: é o monte das velhas recordações de Israel (o Sinai), pode ser também a sede do mistério que muitos povos sonharam. Mas é, ao mesmo tempo, montanha da mensagem e fidelidade de Jesus para com os pobres (bem-aventuranças).

Todos somos os Onze…

“Onze” é um número incompleto, falta um para ser “Doze”, pois só no final estaremos todos. Mas esses “onze” são todos os que amam e escutam a Jesus, somos todos, homens e mulheres, sem diferenças.

Jesus ressuscitado está presente em seus seguidores(as), naqueles(as) que estendem sua palavra pelo mundo, que prolongam seus gestos em favor da vida. Mas agora descobrimos que todos somos “enviados(as)”. Aqui, no monte da Galileia, não há hierarquias nem poder, nem privilegiados… Constituímos o grande Corpo dos amigos e amigas do Ressuscitado, que recebeu a nobre missão de fazer chegar a todos os rincões do mundo a Boa Nova de vida.

Jesus ressuscitado instaura seu Reino abrindo sua palavra para todos, oferecendo um caminho salvador universal por meio daqueles que o acolhem: “Ide e fazei discípulos todos os povos”. Nada de ameaças nem de imposição através da força. Ele não transforma as coisas com violência, mas expressa e realiza de verdade seu senhorio através dos discípulos e discípulas, de modo que todos sejam portadores(as) de sua ação sobre a terra.

O Ressuscitado não se vai: permanece, está sempre presente a partir da Montanha do Amor, no caminho da humanidade. Isso significa que a ressurreição se dá aqui mesmo, no caminho da fidelidade ao evangelho e do envio a todos os povos.

Isso significa que a Páscoa é experiência de responsabilidade para os seguidores que encontraram Jesus na montanha: eles receberam o encargo de expandir a obra do Cristo, em caminho que lhes abriu a todos os povos existentes. Jerusalém perdeu seu antigo privilégio, já não é o centro de todas as nações; por sua parte, Israel deixou de existir como povo peculiar de Deus e centro de sua aliança. O Deus de Jesus Cristo há de revelar-se, desde o monte de sua manifestação pascal, para todos os povos da terra.

Dessa forma, aqui se unem dois termos que antes pareciam ser contrários e que agora são complementares.

– Por um lado, Jesus envia os seus discípulos para que vão a todos os povos, para transmitir-lhes seu evangelho: a Páscoa é, portanto, dom universal de Deus em Cristo; palavra e gesto de amor que vincula às nações e pessoas da terra, superando todo particularismo antigo.

– Mas, ao mesmo tempo, Jesus quer que todos os humanos se tornem discípulos, vinculando-se no caminho e comunidade de amor mútuo. Essa mesma comunidade concreta, centrada nos Onze e aberta a todos os povos da terra, apresenta-se como sinal e sacramento da Páscoa de Jesus para toda a humanidade.

 

Texto bíblico: Mt 28,16-20

 

Na oração: quem “desce” até sua própria realidade, até os abismos do inconsciente, até a escuridão de suas sombras, até a impotência de seus próprios sonhos, quem mergulha em sua condição humana e terrena e se reconcilia com ela, este, sim, está subindo para Deus, faz a experiência do encontro com o Deus verdadeiro.

– Só pode subir à montanha da Ascensão quem desce ao coração do mundo para torná-lo mais respirável e habitável. Como ser presença da Boa-Notícia de Jesus neste mundo marcado por tantas mortes e violências?

 

Padre Adroaldo Palaoro, SJ

Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI

 

 

Imagem principal: Yakobchuk Olena (Istock).

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