Encontro ao amanhecer (Jo 20,1-18)

Nos relatos da Páscoa, os evangelistas narram, de diversas formas, as experiências de encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado. Neste breve escrito, porém, nós nos deteremos concretamente no encontro entre Jesus e Maria de Mágdala, narrado pelo evangelista João. É interessante observar os elementos que compõem a cena: tempo, lugar, agentes e ação: “No primeiro dia da semana, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo e viu que a pedra tinha sido retirada do lugar” (v. 1). Tanto Maria como todos nós, quando perdemos alguém que amamos, sentimos intenso desejo de recuar no tempo, para estarmos junto dessa pessoa e retê-la conosco.

O fluxo narrativo dessa cena nos introduz a compartilhar da “hora zero” da salvação, ou seja, a participarmos da transição da morte para a vida, da escuridão para a luz (“bem de madrugada, quando ainda estava escuro”). Nesse primeiro versículo, vemos Maria totalmente tomada pelo luto, e isso lhe impede de compreender a ressurreição. Os dois primeiros verbos, “foi” e “viu”, movimentam já o posterior desenlace, pois descrevem a chegada de Maria ao sepulcro e a descoberta do túmulo vazio. A seguir, temos mais três verbos que nos situam na expectativa de um novo encontro: “corre” e “vem” até Pedro e o Discípulo Amado e lhes “diz”: “Tiraram do túmulo o Senhor e não sabemos onde o colocaram” (v. 2). Maria aparece ainda bem confusa.

Nossa formação religiosa parece deter-se na crucifixão e deixar por entendida a experiência da ressurreição. Nessa ótica, a confusão de Maria perante os sinais da ressurreição torna-se sinal para sairmos do costume ritual, dos chavões e adentrar-nos na experiência da ressurreição de Jesus Cristo. Maria considerava o cadáver de Jesus como se fosse o Senhor Jesus e por isso retornou ao sepulcro: “Maria tinha ficado perto do túmulo, do lado de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo (v. 11)”. O primeiro momento dela é de desilusão.

A descrição do estado de ânimo de Maria (ela chora) reafirma a incompreensão diante dos acontecimentos, pois ela ainda estava pressa à ideia de que a morte é o fim de tudo. Certamente o sepulcro vazio é uma prova de que Jesus não está mais ali, porém ainda não é a evidência definitiva da ressurreição. Entretanto nos chama a atenção a repetição do movimento: ela se “curva para ver dentro do túmulo: vê os anjos… Logo se vira para fora” e vê Jesus, mas não o reconhece; pensa que é o jardineiro (cf. vv. 12 e 14). Ou seja, Maria ainda não “entendeu” a aparição. “De fato, ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual Ele devia ressuscitar dos mortos” (v. 9).

Seguindo o brevíssimo diálogo entre Jesus ressuscitado e Maria Madalena, notamos o processo de saída à luz de Maria. Pois, submersa na tristeza e na desesperança, não percebe que a vida é que vence a morte e não o contrário. Por isso, quando Jesus lhe pergunta por que ela chora e quem ela buscava, ela está mais ainda no escuro e não o reconhece. “Então Jesus falou ‘Maria!’. Ela voltou-se e exclamou em hebraico ‘Rabbuni!’, isto é, Mestre” (v. 16). O tom do diálogo agora é pessoal (“Maria!”, “A quem procurais”). Imediatamente Maria deixa de observar o túmulo e fixa o olhar no brilho do Senhor ressuscitado, o seu “Mestre”. Em nenhum momento Jesus se impôs, porém, deixando-se encontrar, tenta responder às inspirações mais profundas do discípulo, da discípula.

Maria se encontra com Jesus vivo, início da nova Criação. E a experiência de ser amada e acolhida como discípula a fortalece para ir anunciar e testemunhar o Ressuscitado: “Vai dizer a meus irmãos: ‘Subo a meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus’” (v. 17). Maria Madalena se torna então a primeira missionária na pregação e no ministério da Igreja: “‘Eu vi o Senhor!’, e contou o que ele lhe tinha dito” (v. 18).

O caminho percorrido por Maria de Mágdala é o da fé, que passa pela crise para chegar a ver, face a face, o Ressuscitado. Existem experiências nas nossas vidas que, pelo seu impacto, jamais serão esquecidas. O encontro ao amanhecer é uma destas que marcaram os discípulos desde o começo. A partir de então, eles caminhariam numa relação de intimidade e convivência no amor com o Ressuscitado.

Como Maria Madalena, alegremo-nos, pois Cristo está vivo e está presente entre nós! E seja de noite ou ao amanhecer, o Ressuscitado nos segue, chamando cada um pelo nome e nos espera no amor. Jesus Cristo confia em nós como confiou em Maria e em tantos outros discípulos e discípulas. Por isso nos envia a tecer relações de vida nova e a superar as ideologias de morte do capitalismo monopolista. Deixemo-nos interpelar pela experiência de Maria e que, no Espírito Santo, possamos hoje com ela dizer: “Eu vi o Senhor!”.

Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.