O encontro com a felicidade (Mt 5,1-12) (2ª parte)

Tal como já vimos, no trecho das bem-aventuranças, condensam-se os ensinamentos que Jesus dá a seus discípulos (Mt 5,1-12). Dessa forma, em cada dito, encontra-se muita riqueza de conteúdo. Por esse motivo, neste breve escrito, daremos continuidade à reflexão publicada em setembro. Entretanto aqui nos deteremos especificamente nos versículos 5 a 12.

Quando refletimos a primeira bem-aventurança, vimos que não podemos conceder importâncias às coisas, mas sim a Deus e, portanto, às pessoas. O caminho da felicidade que Jesus nos propõe nos impele a levantar os olhos à “Montanha”, impele-nos a olhar, sem medo, o presente e assumir, com alegria, o compromisso com nossa casa comum.

Nesse sentido, a terceira bem-aventurança, “Felizes os que choram, porque serão consolados” (v. 5), não deixa de nos surpreender. Pois ninguém espera pelo sofrimento, mas, com certeza, desejam que as relações o façam sentir-se feliz. Contudo reconhecemos que as relações humanas, quando sustentadas na ótica patriarcal, androcêntrica e mercantil, desumanizam-nos. O risco é acreditar que é “normal” ser forte, dominador e intolerante com os outros. Diante dessa realidade, Jesus nos diz “que felizes são os que choram…”, porque, ao não concordarem com essa forma cruel de entender as relações, sofrem. Mas a dor que se padece buscando outras formas de se relacionar conduz às profundezas da vida. E é tocando nossas profundezas que ressurgimos mais humanos.

Dessa forma, essa bem-aventurança de felicidade podemos interpretá-la em nossa atualidade com o seguinte significado: que felizes os que choram diante da dolorosa realidade de exclusão, marginalização, violência, pobreza, injustiça e destruição da casa comum. Porque quem sente a dor do mundo não aceita sua degradação. Que felizes são eles porque não se conformam com os sistemas injustos, os devaneios mercantis e a crescente violência. Porém ousam denunciar e buscar alternativas de vida digna. A partir desse choro é que se encontra a alegria de Deus. Essa bem-aventurança descreve muito bem a Jesus, por isso quem quer ser seu discípulo terá de abraçar esse mesmo caminho de felicidade.

As palavras não existem no vazio. Têm uma história inscrita nas experiências de quem as usa: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (v. 6). Os evangelhos narram que Jesus ia de um lugar a outro, pregando a Boa-Nova. Nessas viagens, com certeza, experimentou a fome e a sede. Além do mais, na Palestina antiga, as condições geográficas e econômicas propiciavam estados de fome e sede extremas. Algo incompreensível nas sociedades atuais, sobretudo as de cunho ocidental. De modo que a fome dessa bem-aventurança não se pode compreender como aquela que se sacia comendo um petisco ou bebendo um refrigerante. Pois se trata daquela fome de quem, durante toda a sua vida, não comeu o suficiente para satisfazer-se.

Essa bem-aventurança nos coloca, assim, diante da pergunta: qual é a intensidade real do desejo de justiça que nos anima? Até que ponto estamos dispostos a assumir o compromisso que a justiça demanda Entretanto nos cabe arriscar a diferença entre o conceito antigo e atual de justiça. No antigo Israel, a justiça concebia-se como sendo o valor mais elevado da vida. Sobre tal valor toda a vida se sustentava. Desse modo, a justiça era a base da paz e da benção. Na sociedade atual, porém, a justiça se resume em dar a cada parte o que as leis determinam. Notemos que essa bem-aventurança é exigente e radical, uma vez que não fala de desejar um pouco de justiça atual, mas de desejar a total justiça bíblica.

A bem-aventurança em sequência, “Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (v. 7), requer pouca explicação, pois suas palavras são já um grande ensino. Dessa forma, basta-nos dizer que a misericórdia é muito mais que sentir piedade do outro. Trata-se da capacidade de nos adentrar no outro, a tal ponto de podermos ver com seus olhos, pensar com sua mente e sentir com seu coração. Numa sociedade individualista, essa bem-aventurança é uma grande luz, pois nos desafia a sair da falsa bondade e do conforto para identificar-nos com o outro. Dessa forma, podemos interpretar essa bem-aventurança como “que feliz é a pessoa capaz de entrar nos outros e sentir com eles, pois sentirá o mesmo dos outros e de Deus!”.

“Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (v. 8). Entendemos que ser puro de coração é aquele que não pratica o mal e cujas intenções são íntegras. Advirtamos que não se trata de viver numa falsa modéstia, mas de identificar-se com Deus e seu projeto. De tal modo, podemos ler essa bem-aventurança assim: “que feliz é a pessoa cujas motivações são completamente puras, porque ela verá a Deus!”. Em consonância está a seguinte bem-aventurança: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (v. 9). No hebraico, paz (shalom) significa tudo aquilo que contribui ao bem-estar integral do ser humano. Portanto essa bem-aventurança não é a aceitação passiva de qualquer situação; antes, é denúncia do mal e promoção da paz.

A seguir, temos duas bem-aventuranças cujo tema é a perseguição por causa de Cristo: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes sois quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, dizerem todo o mal contra vós por causa de mim” (vv. 10-11). Como se pode perceber, os seguidores de Jesus estão sempre em conflito com um mundo que rejeita sua mensagem (Jo 16,2-4.8-11.20.33;17,14-16). Jesus não oculta a conflitividade de quem assume o projeto do Reino, porém procura transmitir um modo de vida que produz alegria e prazer: “Alegrai-vos e regozija-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (v. 12).

A dinâmica egocêntrica leva a acumular e possuir para, assim, resistir à insegurança da vida. Entretanto, o dom de Deus inspira e motiva a pessoa para que esta se assemelhe a Ele e apreenda a relacionar-se gratuita e generosamente, como Jesus o fez. Pois quem vive para os outros vive para Deus. Enfim, o Sermão da Montanha, pela relação com Deus, é atraente e fascinante, produz crescimento pessoal e alegria vital, porque situa e fecunda o plano de vida. Cabe a cada um decidir-se por ele.

Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia.
Nasceu no México e é missionária em Moçambique.