“Pega-pega corrente…”

É tipo bugre com emoção nas dunas…

Descer morro de carrinho de rolimã…

Deixar-se levar pela correnteza na chuva…

Correr de cachorro de rua…

Desviar do esguicho do apressado carro na chuva.

Andar de bicicletas sem freios!

Brincadeiras e possibilidade que despertam emoção e nossa falta de juízo.

Só Deus na causa…

Lembro-me de uma brincadeira assim, que despertava emoções muito contraditórias.

Era um “pega-pega”, um “pique-pega”, entre vários que ainda resistem na memória.

Pesquisando no acervo vivo de amizades desde o século passado, encontrei diversas versões de uma toada ritmada que acompanhava toda brincadeira:

“Olha a corrente que come gente… Quem tem medo que saia da frente…”

“Olha a corrente que mata gente… Quem tem medo que saia da frente…”

“Olha a corrente que pega gente… Quem tem medo que saia da frente…”

Era eletrizante, cada criança capturada fazia parte de uma corrente, e as duas pessoas da ponta passavam a capturar, até a última pessoa ser pega e se tornar a vitoriosa da brincadeira.

Era como se fosse uma cobra gigante se arrastando pelas ruas e quadras, num ritmo alucinante e com um objetivo comum…

Não era comer, não era matar nem era para pegar gente…

Era uma experiência marcada de adesão e potência para não deixar ninguém de fora.

Experimentando a força do coletivo e se sentindo fortalecido a cada pessoa que se juntava à corrente.

A força do coletivo vem sendo subestimada diante de tantos muros, tantos alarmes, tanta blindagem, tanta desconfiança, tanto individualismo, tanta discriminação, tanta segregação, tanto medo.

É assustador criar crianças nesse clima. Muitas experiências vivas e potentes ficam de fora em nome da proteção, do zelo, dos evidentes perigos, do empobrecido cotidiano.

Pra desejar um feliz ano letivo a toda comunidade educativa, eu imaginaria essa corrente como um grande abraço coletivo, para ninguém se isolar e para fazer acreditar que, de mãos dadas, vamos longe!

“Pega-pega corrente para ninguém ficar de fora.”

“Pique-corrente para ninguém ficar de fora.”

Ao darmos as mãos, as relações se fortalecem, a experiência de contar com o outro vira prece.

“Olha a corrente que pega gente, chega junto, vem pra frente…”

“Olha a corrente que pega gente, vamos fazer um mundo diferente…”

“Olha a corrente que pega gente, chega junto vem pra frente…”

“Olha a corrente que acolhe gente, assim o mundo é mais potente…”

“Olha a corrente que pega gente…”

Se você ainda teme…

“Olha a corrente que pega gente… Quem tem medo que saia da frente…”

E brincadeira que segue!

 

Referência melódica: https://www.youtube.com/shorts/5weJkvtAb3k

 

 

Maria José Brant (Deka)

Assistente social, jardineira nas horas vagas.

 

 

Imagem principal: Antonius Ferret (Pexels).

 

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