Uma pipa no céu

Estava eu numa cidade do interior de São Paulo. Era meia-tarde! Caminhava num jardim cercado de muros da casa onde me hospedava.

Olhei para o céu e logo vi duas pipas (papagaios, pandorgas). Não vi quem as empinava. Era alguém que estava na rua. O céu estava ensolarado, com um azul de arrancar suspiros de tão bonito estava! O vento não era forte, mas refrescante. Parecia que a natureza, naquela hora, convidava a elevar o pensamento. Foi o que fiz. Comecei a observar as pipas, ziguezagueando no ar. Elas subiam e desciam. Suas caudas se espraiavam no ar, fazendo como uma onda suave, balançando, despertando em mim uma vontade de voar.

Distraidamente, quase sem querer, comecei a pensar. Quem estaria lá na ponta da linha, manobrando com tanta maestria aquelas pipas? Poderiam ser umas crianças; elas gostam de brincar com pipas. Mas há também adultos que o fazem.

Comecei a imaginar que aquelas pipas poderiam ser, além de objetos para brincar, símbolos daquilo que vai no coração das crianças e também da gente adulta.

Subir para o céu e lá permanecer, num balancear suave, é um anseio do coração humano que não se contenta nem se satisfaz com aquilo que é só da terra! A alma humana precisa de algo que seja mais sublime, mais transcendente, mais eterno! Que mora lá no céu!

Quando me veio esse pensamento, comecei a imaginar mais coisas. Por exemplo, não é todo dia nem toda hora que se empinam pipas! Se não houver vento, se o dia estiver chuvoso, se for noite, a pipa não sobe! Assim também na vida! Se ela não tiver “alma” que a eleve além dos horizontes que as mãos alcançam, ela fica sem graça e sem beleza. Se ela for como dia chuvoso, cheia de problemas, o sol não brilha, fica sem sentido, afundada no lamaçal das dificuldades. Se ela for como a noite escura, vivendo nas sombras, nos subterfúgios, ninguém a verá.

A pipa é para viver no céu. Para ela ir lá e ficar, precisa de alguém que a manobre, alguém que lhe dê direção, alguém que a controle. Se a deixar ao léu, ela some, cai! É necessário um fio que a mantenha ligada à terra e, ao mesmo tempo, a conduza para o céu! Nossa vida também é assim. Tem sentido se vive para transcender-se, mantendo-se com os pés na realidade. Seu sentido está em alcançar o céu, mas não pode desligar-se daquilo que está na terra.

Para manter o equilíbrio entre o céu e a terra, a linha tem de ser boa e flexível. Contudo há quem empine pipas e se veste de más intenções. Pode querer cortar a linha do outro. Passa cerol, e a linha fica perigosa. Quando se encosta à outra, corta, rompe, e a pipa se perde do rumo, e começa despencar. Um bando de crianças corre atrás, desesperado para agarrar a pipa que vai trambolhando sem lugar certo para cair. Quem a pega continua correndo, com medo de que alguém a tome, e assim, aquilo que era pura diversão e beleza torna-se competição, agressão. Não devia ser assim, pois, na vida, cada um tem o direito de cuidar da sua, levá-la para onde quiser, sem ameaças e sem medo de que o outro lhe roube o prazer de viver.

As pipas só descem quando quem a empina enjoou da brincadeira ou quando cai a noite. A vida fica enjoada quando perde seu encanto ou quando fica escura, vazia, quando não se sabe mais o que fazer com ela. Aí é como o empinador de pipa: enrola sua linha, e ela fica amontoada em algum canto. A vida assim é ruim, fica sem sua graça e sem sua beleza.

A vida é bela quando cada dia pode realizar seus sonhos, ficar com um pé na terra e outro no céu. Só na terra perde o sentido. Pior fica quando alguém, com o fio com cerol, encosta nela não para brincar junto, mas para cortar a linha. Este não só rouba o prazer da vida do outro como lhe tira as chances de continuar no céu e de lá voltar quando quiser. Tira-lhe a liberdade de escolher. Fere o prazer de viver seu momento de alegria. Quando a vida se torna isso, um derrubando o outro, alegrando-se com a desgraça alheia, ela perde o encanto e a poesia.

Pipa é bonita no céu, balanceando sua cauda sem pressa para voltar e sem sofreguidão para subir demais! Só até onde a linha permite. Uma pipa no céu é sinal de uma criança (adulto) na terra feliz, é lá que a alma humana um dia quer morar para sempre!

Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDS
Padre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *