Unidade na diversidade: viver a interculturalidade com interdependência e corresponsabilidade por nossa missão comum

Irmã Maria Müller, SSpS Alemanha

 

1 Unidade e autonomia

 

Unidade e diversidade formam uma dinâmica de tensão que, de muitas maneiras, molda nossas vidas. Uma das necessidades mais profundas que nós, seres humanos, temos é a de conexão: o sentimento de pertencimento, de fazer parte de algo, de ser sustentado, de estar seguro com alguém. Quando as crianças estão firmemente conectadas, elas podem desenvolver uma autonomia saudável, descobrir as próprias capacidades e crescer como pessoas independentes. Essa tensão entre autonomia e conexão, entre singularidade e pertencimento nos acompanha ao longo de toda a vida.

Essa mesma dinâmica se manifesta também em minha relação com Deus. Muitas vezes, anseio por proximidade, mas, com a mesma frequência, quero seguir meu próprio caminho, decidir por mim mesma para onde a estrada deve levar.

 

2 O exemplo de Jesus

 

Na vida de Jesus, torna-se claro que Deus busca conexão conosco, seres humanos. Deus se faz humano para se aproximar de nós, desatar e curar os muitos nós e feridas que nos separam. Para mim, a missão de Jesus se expressa na frase simples, porém profunda: “Estou sentindo sua falta”. Jesus nos mostra o rosto do Deus Vivo, que nos procura, que cura nossas feridas e que nos ama de tal maneira que podemos aprender, a partir desse amor, a nos relacionar com os outros, no amor.

Ao mesmo tempo, Jesus nunca se apega às pessoas de forma possessiva. Repetidas vezes, Ele lhes diz: “Vai, a tua fé te salvou”. A outros, Ele os chama a segui-lo e depois os envia, de forma autônoma, para curar e anunciar o Evangelho. O Espírito Santo forma uma comunidade que, como vemos no evento de Pentecostes, supera todas as barreiras linguísticas e divisões culturais; onde a compreensão e a conexão se tornam palpáveis.

Nossa missão também se expressa na frase “Estou sentindo sua falta!”. Você faz falta à nossa comunidade! Não no sentido de posse ou ameaça, mas no sentido de relação, conexão, reconhecimento e diálogo.

 

3 O corpo de Cristo

 

Em várias de suas cartas, Paulo usa a imagem do corpo para descrever a unidade na diversidade. Cada parte do corpo tem uma função única e indispensável para o todo, algo que somente ela pode realizar (cf. Romanos 12,4-9).

 

Romanos 12,4–9: 4 Como num só corpo temos muitos membros, cada qual com uma função diferente, 5 assim nós, embora muitos, somos em Cristo um só corpo e, cada um de nós, membros uns dos outros. 6 Temos dons diferentes, segundo a graça que nos foi dada. 7 É o dom da profecia? Profetizemos em proporção com a fé recebida. É o dom do serviço? Prestemos esse serviço. É o dom de ensinar? Dediquemo-nos ao ensino. 8 É o dom de exortar? Exortemos. Quem distribui donativos, faça-o com simplicidade; quem preside, presida com solicitude; quem se dedica a obras de misericórdia, faça-o na alegria. 9 O amor não seja falso. Detestai o mal, apegai-vos ao bem.

 

Nossos dons são direcionados aos outros, eles criam conexão e promovem a vida. Cada dom se torna um chamado, e isso fica claro na passagem acima. Em outros textos, Paulo aprofunda ainda mais a relação entre as partes do corpo.

Todos os anos, iniciamos a preparação dos novos voluntários do MaZ com um momento de oração, no qual lemos 1 Coríntios 12,12–27. É uma passagem longa, mas vale muito a pena ser lida, pois é riquíssima e ilustra, de forma vívida, a imagem do corpo.

 

1 Coríntios 12,12–27: 12 De fato, assim como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo. 13 De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num só Espírito, para formarmos um só corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito. 14 Na verdade, o corpo não é feito de um membro apenas, mas de muitos. 15 Se o pé disser: “Eu não sou mão, portanto não pertenço ao corpo”, nem por isso deixa de pertencer corpo. 16 E se a orelha disser: “Eu não sou olho, portanto não pertenço ao corpo”, nem por isso deixará de pertencer ao corpo. 17 Se o corpo todo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se o corpo todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? 18 De fato, Deus dispôs os membros, e cada um deles, no corpo, conforme quis. 19 Se houvesse apenas um membro, onde estaria o corpo? 20 Mas, pelo contrário, há muitos membros e, no entanto, um só corpo. 21 O olho não pode dizer à mão: “Não preciso de ti”, nem a cabeça dizer aos pés: “Não preciso de vós”. 22 Bem mais ainda, até os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são indispensáveis. 23 Também os membros que consideramos menos honrosos são os que cercamos com mais honra; e os que temos por menos decentes são os que tratamos com mais decência. 24 Os que consideramos decentes não precisam de cuidado especial. Mas Deus, quando formou o corpo, deu mais honra ao que nele é tido como sem valor, 25 para que não haja divisão no corpo, mas, pelo contrário, os membros sejam igualmente solícitos uns pelos outros. 26 Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele. 27 Vós todos sois o corpo de Cristo e, individualmente, sois membros desse corpo.

 

Isso mostra que cada parte do corpo tem uma função importante e que é precisamente a diversidade das partes que torna o corpo viável. A uniformidade (se todos fossem iguais) significaria que não haveria ninguém.

 

4 Desafios interculturais

 

Pessoalmente, sempre me chama muita atenção este versículo: “Bem mais ainda, até os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são indispensáveis” (1Cor 12,22).

Paulo nos chama a respeitar e valorizar essas partes do corpo. Isso representa um enorme desafio na sociedade e na cultura alemã em que cresci. É altamente valorizado ser diligente, realizar tarefas, concluir uma longa lista de afazeres no fim do dia. Seguir em frente, não desacelerar, tomar iniciativa, tudo isso é considerado algo positivo.

E então Paulo afirma que os fracos são especialmente importantes?

A fraqueza me incomoda. Tenho dificuldade em aceitá-la. Ela me incomoda em mim mesma e, ainda mais, nos outros. Quando vejo apenas a irmã difícil, o membro da comunidade que cansa, o colega que testa a minha paciência, preciso respirar fundo. Por que eu sempre tenho de ser aquela que cede?

Quando trabalho com os voluntários do MaZ o tema da interculturalidade, uso um método que me abriu os olhos quando o vivenciei pela primeira vez. Começamos recolhendo preconceitos, coisas que “sabemos” sobre as pessoas dos países para onde os voluntários irão. Cada participante escreve dez. Depois eu recolho e organizo.

Mesmo que os voluntários do MaZ se dirijam a países muito diferentes, a maioria dos preconceitos se repete: não pontuais, pouco instruídos, pouco higiênicos, criminosos ou ineficientes.

Então pergunto ao grupo: por que vocês acham que, mesmo pensando em países tão diferentes, aparecem tantos preconceitos semelhantes?

Nesse momento, convido você a fazer uma pausa e refletir: você tem alguma ideia do porquê?

Em seguida, listamos os opostos desses estereótipos: pontualidade, educação, limpeza, segurança e eficiência.

Normalmente, nesse momento, ouve-se um “Ah!” coletivo no grupo.

Em nossos preconceitos (naquilo que nos irrita ou incomoda nos outros), descobrimos o que é importante para nós, nossos próprios valores. Nossos preconceitos dizem mais sobre nós e nossos valores do que sobre o grupo que descrevemos. Isso é tão importante que vale a pena repetir: o que me incomoda nos outros diz menos sobre eles e mais sobre o que é importante para mim.

 

5 Transformação por meio do diálogo

 

Pode ser emocionalmente desafiador e profundamente frustrante tentar mudar os outros (“educá-los”). Dói sentir-se incompreendida, ignorada ou pouco valorizada, porque sustento valores diferentes e, por isso, me destaco. Mas uma conversa aberta, na qual exploramos os valores uns dos outros (um diálogo em que estou verdadeiramente disposta a escutar), abre um caminho de aprendizagem.

No diálogo, muitas vezes, descubro que o outro também representa algo profundamente valioso. Existem boas razões, em outras culturas, para que a pontualidade seja menos importante, talvez porque seja mais significativo dedicar tempo às pessoas aqui e agora ou responder com flexibilidade ao momento.

Meu horizonte se amplia, e posso aprender com o outro quais outras formas de pensar, viver e agir se tornam possíveis. Isso leva tempo, pois, embora possamos compreender intelectualmente por que o outro age como age, a reação emocional costuma demorar mais para mudar. E isso ainda pode me causar desconforto ou até dor.

Com o tempo, meu pensamento se amplia, meu coração se torna mais generoso e a conexão pode crescer, apesar das grandes diferenças.

O que é desconhecido sempre permanecerá, de certo modo, desconfortável.

Mas sem esses encontros e confrontos, eu nunca teria aprendido tanto sobre mim mesma e sobre meus valores, muito menos sobre as muitas alternativas que existem.

Por meio do processo de aprendizagem e do envolvimento honesto, a conexão (a relação) torna-se palpável.

 

6 Conclusão: o dom do outro

 

Estou sentindo sua falta! Sinto falta de sua perspectiva, de sua história, de sua capacidade de amar, de suas habilidades únicas; nós sentimos falta delas! Especialmente aquilo que me irrita ou incomoda é, em minha experiência, muitas vezes, um desafio no início, mas também traz o maior potencial de crescimento, transformação e enriquecimento. Essas realidades mostram o que está faltando (em mim, em nós).

Envolver-se nesses processos de aprendizagem geralmente exige coragem e disposição para sair da zona de conforto. Mas esse também é o caminho para descobrir algo verdadeiramente valioso.

O que nos torna diferentes não precisa nos separar; pelo contrário, pode nos aproximar uns dos outros e de nós mesmos. Para isso, é necessária a disposição para conversar, escutar com o coração e mudar a perspectiva.

Fui agraciada, muitas vezes, por esse tipo de encontro e me sinto profundamente realizada após transformações tão significativas, porque percebo que aquilo que nos une é mais forte do que aquilo que nos divide, especialmente quando nos encontramos com abertura e apreço. Como Paulo expressou: “os membros que consideramos menos honrosos são os que cercamos com mais honra”.

Creio que é o Espírito Santo quem nos une no amor, bem no coração de nossa diversidade.

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *