Para milhões e milhões de pessoas de boa parte do mundo, a Bíblia é uma fonte de inspiração, sabedoria e consolo. A forma como ela é lida e interpretada tem um impacto significativo em suas vidas e na sociedade. Uma das abordagens que suscita mais debate e, frequentemente, perigos, é a leitura fundamentalista. Essa perspectiva, que insiste em uma interpretação literal, apimentada por uma “obediência” cega às Sagradas Escrituras, pode gerar uma série de consequências negativas que vão desde a intolerância pessoal até a justificativa para violências e discriminações. Em outras palavras, o que veio para ser luz para a humanidade pode se transformar em arma que destrói vidas e reputações.
O principal perigo da leitura fundamentalista é o desprezo pelo contexto. A Bíblia é uma coleção de livros escritos ao longo de séculos, em diferentes culturas, idiomas e contextos históricos. Vez ou outra, nós, do Ocidente, esquecemos que o berço bíblico é oriental, com um modo diverso de ver as coisas da vida. Ignorar essas nuances e tratar cada versículo como uma verdade absoluta e universal é uma forma de anacronismo intelectual. Um texto que fazia sentido para uma comunidade agrícola do Oriente Médio de 3 mil anos atrás pode não se aplicar diretamente a uma sociedade globalizada e tecnologicamente avançada. A literalidade cega, por exemplo, pode levar à crença em um mundo criado em seis dias de 24 horas, ou à ideia de que a Terra é o centro do universo, em total contradição com o conhecimento científico atual.
Além de sua incompatibilidade com a ciência, a leitura fundamentalista pode ser profundamente danosa no âmbito social. Ao tratar passagens bíblicas sobre a escravidão, a submissão das mulheres ou a violência contra os inimigos como mandamentos divinos atemporais, o fundamentalismo cria um solo fértil para o preconceito e a intolerância. Com base em uma leitura seletiva e literal dos textos, grupos fundamentalistas têm, historicamente, justificado a discriminação contra minorias raciais, a subjugação da mulher e a perseguição de pessoas homoafetivas. Essa abordagem não apenas distorce a mensagem central de amor e compaixão presente em grande parte da Bíblia, mas também legitima a exclusão e o ódio em nome da fé.
Outro aspecto perigoso é o risco de manipulação e abuso de poder. A interpretação fundamentalista, ao autoproclamar-se como a única correta e inspirada por Deus, cria uma hierarquia rígida de poder. O líder religioso ou a instituição que detém essa “chave” de interpretação se torna o árbitro da “verdade”, o que pode levar a um controle opressor sobre a vida dos fiéis. A autonomia e o pensamento crítico são desencorajados, e a dúvida, vista como pecado. Tal cenário é propício para o surgimento de cultos abusivos e “pregadores” que exploram a fé e a lealdade de seus seguidores para ganho pessoal, de poder e até financeiro. Em outras palavras, a mensagem bíblica, se mal transmitida ou interpretada, pode ser um instrumento do chamado “abuso espiritual”, tema que merece oportunamente uma reflexão mais aprofundada.
A saúde mental dos indivíduos também pode ser severamente afetada. A constante ameaça de condenação, a culpa por não atingir padrões inalcançáveis de pureza e o medo de um Deus punitivo são temas recorrentes em algumas interpretações fundamentalistas. A rigidez moral e a pressão por conformidade podem levar a quadros de ansiedade, depressão e escrúpulos religiosos. Na Igreja Católica, por exemplo, esse é um dos motivos do assombroso fenômeno dos fiéis “mais católicos que o Papa”. Em casos extremos, pode gerar um isolamento social e uma visão maniqueísta de mundo, na qual o “mundo exterior” é visto como uma ameaça constante e contaminada pelo mal. Em vez de sinal da presença de Deus no meio de seu povo (shekinah), um olhar equivocado da Bíblia pode levar a uma ruptura com o Sagrado (!!!).
Por fim, o fundamentalismo bíblico, em sua forma mais extrema, pode ser um obstáculo para o diálogo inter-religioso e a paz mundial. Ao insistir que apenas sua interpretação está correta e que todas as outras crenças são falsas, essa perspectiva alimenta a hostilidade e o sectarismo. A demonização de outras religiões e filosofias de vida impede a construção de pontes e o entendimento mútuo, essenciais para a coexistência em uma sociedade plural. O fundamentalista costuma ignorar a sacralidade de todos os seres humanos e da natureza.
A Bíblia, quando lida com uma abordagem hermenêutica que considera seu contexto, seus gêneros literários (poesia, narrativa, profecia…) e sua mensagem evolutiva, pode ser uma bússola moral e espiritual. No entanto, quando cegamente tratada como um manual de instruções literal e infalível, ela se torna uma ferramenta perigosa, capaz de justificar a intolerância, a violência e a opressão. O verdadeiro desafio para os crentes (e para a sociedade como um todo) é discernir entre a sabedoria divina e os perigos de uma interpretação que aprisiona a fé em “dogmas” rígidos e, muitas vezes, nocivos.
Tenhamos disposição e coragem para o estudo esmerado da Bíblia. Iluminados, iluminadas pelo Espírito, sejamos vigilantes para que a grande Carta de Amor de Deus a todos nós não se transforme em ferramenta de ódio! Mil vivas ao Pão da Palavra, no qual Jesus também está presente de forma real, e aos que se dedicam honestamente ao estudo das Escrituras.
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Membro da Equipe de Comunicação SSpS Brasil, diácono na Arquidiocese de Belo Horizonte.

