Nossos antepassados presentes

Você acredita em vida pós-morte? Como presta homenagem a seus antepassados? “Finados”, “falecidos”, “desencarnados”, “espírito”, “alma”, enfim, os entes queridos que foram desta vida para outra são nossos ancestrais que se tornam presentes em nossas memórias. Todos geralmente têm algum parente, vizinho ou amigo próximo que partiu, mas sua memória permanecemos a “cultuar”, em nossos corações, com lembranças vividas em momentos significativos.

Neste ano de 2020, com a pandemia, milhões de pessoas no mundo partiram por causa da covid-19, uns com idade avançada, outros ainda jovens, além dos que se foram devido a outras doenças, os que foram pela violência na sociedade ou por motivos diversos. Ninguém sabe a hora que vai. A partida pode acontecer a qualquer momento. Muitos acreditam que somente na velhice se deve pensar no assunto. Porém o tempo não nos pertence. Por isso cada instante deve ser vivido com intensidade no bem, na prática da virtude.

A morte é uma experiência que o ser humano vivencia desde que o mundo é mundo. Para uns, pode significar liberdade; para outros, o fim. A verdade é que não nos acostumamos com a ideia, pois ainda somos muito apegados à nossa vida material. Para os cristãos, o Dia de Finados é uma data de prestar homenagem aos que nos antecederam nesta vida e oferecer-lhes orações fervorosas. Um dos modos de representação religiosa para o fenômeno é acender vela, oferecer flores.

Cada povo tem seus costumes para homenagear as pessoas amadas. Certas culturas andinas levam comida para o túmulo de seu ente querido, algumas asiáticas cultuam uma planta próxima ao jazigo, outras fazem rituais de dança. Os antigos egípcios já tinham o hábito de cultuar seus mortos em túmulos significando “casa da eternidade”. O que há em comum é que todas têm a crença de que existe vida após a morte e que os espíritos necessitam de preces, sejam de gratidão ou de perdão.

Na Grécia Antiga, a morte já era um assunto filosófico. Pitágoras, Sócrates, Platão, entre outros pensadores, defendiam a imortalidade da alma, por isso a busca da prática das virtudes é vista como a única certeza que levaremos conosco para a vida futura após nossa despedida terrena. Alguns definem esse fenômeno como a separação de átomos do corpo, deixando a alma livre, conforme Epicuro (341-271 a.C.). Cícero (I a.C.) e Sêneca (65 d.C.), influenciados por seus antecessores, tratavam sobre a passagem da velhice e a brevidade da vida, reafirmando a importância de uma conduta ética. Arthur Schopenhauer (1768-1860) resgataria o assunto, ao escrever, em sua obra Da morte, que o ser humano é o único entre os animais ter consciência de sua finitude terrena.

Independentemente da simbologia que usarmos para homenagear nossos antepassados, o cristianismo nos deu a certeza de que a morte não existe, pois Cristo a venceu. E ainda disse: “Na casa do meu Pai, há muitas moradas”. Então confiemos que, um dia, todos nós nos encontraremos na eternidade.
Roguemos aos mártires, aos santos, aos nossos intercessores coragem para continuarmos a vida sempre na esperança, na fé e na prática do bem a caminho da vida eterna.

Um texto de Henry Scott Holland, ministro anglicano, mas costumeiramente atribuído a Santo Agostinho, diz:

A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do caminho. Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo. Me deem o nome que vocês sempre me deram, falem comigo como vocês sempre fizeram. Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador. Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos. A vida significa tudo o que ela sempre significou. O fio não foi cortado. Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho. Você que aí ficou, siga em frente! A vida continua, linda e bela como sempre foi.

Celebremos a vida! Sejamos gratos a nossos antepassados e rezemos por todos os entes queridos e também àqueles que se recomendam nossas orações.

Maria Terezinha Corrêa
Mestra em Antropologia (USP), especialista em Ensino de Filosofia (UFSCar), graduada em Filosofia (UFJF) e Pedagogia (Unitins), Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa pertencente à Arquidiocese de Florianópolis.

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