O agronegócio é compatível com a ecologia integral?: compartilhando uma história vivida

“O avião que joga o veneno faz a curva bem ali, em cima da cerca da nossa terra.” Foi o que ouvi de Wagner, jovem liderança do povo Krahô-Kanela, quando cheguei à aldeia, no Tocantins, pouco antes da pandemia. Ele estava falando do vizinho plantador de soja, e seu povo queria conversar sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde.

Passarinhos que não se ouvem mais; peixes que aparecem mortos, boiando no rio; pessoas queixando de dor de cabeça ou de irritação nos olhos e na pele… Ao falar sobre isso, estes indígenas nos mostram consequências do modelo produtivo do agronegócio para a saúde do ambiente e das pessoas. Ao mesmo tempo, testemunham a ecologia integral a que nos convida o Papa Francisco, ao mostrar, em seu cuidado com os seres não humanos, que sua cosmovisão vai muito além do antropocentrismo.

Os Krahô-Kanela, assim como várias outras etnias e também ribeirinhos, quilombolas e camponeses, há muito tempo, vivem nesta linda e generosa região de florestas alagadas. Saberes e fazeres ancestrais, transmitidos às novas gerações no dia a dia, conformam modos de vida singulares, em estreita relação de respeito e afeto com o ecossistema, onde buscam o peixe, as frutas, as ervas, a palha, a água e o contato com seus encantados.

Há algumas décadas, o agronegócio se instalou nestas terras férteis e ricas em água da bacia do rio Formoso, no Sudoeste do Tocantins, assim como em outras regiões do Estado, onde já ocupa cerca de um milhão de hectares para produzir soja e exportá-la para a China (para alimentar os animais confinados que provavelmente participaram do desequilíbrio que originou a pandemia de covid-19). Enquanto isso, diminui a área plantada com mandioca, por exemplo, que é comida de verdade. Enquanto isso, vários povos e comunidades tradicionais, descendentes dos povos originários desta terra, aguardam há anos a demarcação de um pedaço de terra onde possam viver de seu jeito.

Modelo químico-dependente

Injustiça hídrica é o que fazem os empresários do agronegócio quando constroem barragens no rio e capturam essas águas para canais que vão dar direto em seus monocultivos. À montante, essas barragens geram inundação nas plantações do povo do lugar e até mesmo nos terreiros das aldeias. À jusante, principalmente quando não é tempo de chuva, o leito do rio pode ser usado como estrada, de tão seco, como nos mostrou em fotos a equipe do Regional Goiás-Tocantins do Cimi (Conselho Indigenista Missionário). Os peixes não conseguem fazer a piracema, a mata ciliar vai secando, e todos os seres que precisam da água do rio ficam sem ela. Não seriam as águas um bem comum?

Além de hidrointensivo, o modelo produtivo do agronegócio é químico-dependente. Sim, porque, para obter a tal produtividade de que tanto se orgulha, extraindo mais de uma safra por ano, espalha sobre a terra toneladas de fertilizantes químicos, os quais contêm vários metais pesados, tóxicos para a biota e para os seres humanos, e que acabam sendo carreados pelas chuvas para o leito dos rios, contaminando também as águas e atingindo outros territórios. A partir do nitrogênio, geram ainda gases nitrosos que têm efeito estufa e contribuem para o aquecimento global.

Depende ainda dos agrotóxicos, já que, ao desmatar extensas áreas, destroem a biodiversidade da qual depende o equilíbrio entre as espécies, através de complexas e delicadas relações ecológicas. Gera, desse modo, o que chama de “pragas” (bactérias, fungos, insetos, ervas). E… dá-lhe veneno! No caso da soja, os estudos mostram que são cerca de 17,7 litros de veneno por hectare. Fazendo a conta, no ano de 2019, foram lançados 19.257.600 litros de veneno nos 1.088.000 hectares de soja plantados no Estado do Tocantins, inclusive na aldeia onde mora Wagner. 

Responsável por mais de 50% dos venenos usados no Brasil, e especialmente nos monocultivos de soja, é o glifosato (nome técnico do Round-up), produzido pela Monsanto, um herbicida que o povo costuma chamar de “mata-mato”. Além de matar ervas “daninhas”, veja do que ele é capaz: alterar as células reprodutoras e causar más-formações congênitas (defeitos ao nascer); interferir nos hormônios do organismo e levar a infertilidade, abortos, puberdade precoce; e se isso fosse pouco, causar câncer, como estabeleceu a Organização Mundial da Saúde ainda em 2015. E, apesar disso, o governo brasileiro, influenciado pelo poder político (e econômico) dos ruralistas, segue autorizando o uso do glifosato no Brasil. 

Ecocídio e genocídio

Vamos então juntar as peças: tiram a terra dos povos e comunidades tradicionais para produzir commodities, apropriam-se e contaminam as águas que sustentam os ecossistemas e suas vidas, e ainda jogam veneno (às vezes, de avião) sobre seus lugares de vida. Em nome do quê? Do progresso, do desenvolvimento, da balança comercial? Ou esse é um discurso para dourar o lucro de grandes corporações econômicas? Essas vidas não importam? Isso não é racismo?

Convido vocês a refletir: esse quadro de ecocídio e genocídio não se restringe ao sudoeste do Tocantins; repete-se, em suas linhas gerais, em todo o cerrado e também em outros biomas, porque o agronegócio está no centro do atual modelo de desenvolvimento, junto com a mineração. Chega a todos nós, através dos alimentos contaminados, das águas contaminadas, das mudanças climáticas, e do comprometimento do futuro da humanidade no Planeta Terra. Como podemos afirmar e dar concretude a nosso compromisso com a vida?

Raquel Rigotto é professora Titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). Graduada em Medicina e mestra em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutora em Sociologia pela UFC e pós-doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). É membro da Rede Brasileira de Justiça Ambiental.

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