É nas ruas do Brás, bairro que concentra a maioria da população migrante latina da cidade de São Paulo, que o Centro de Integração do Migrante (CIM) iniciou seu processo de construção. As irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) andaram pelas ruas, visitaram casas, oficinas de costura, comércio, festas temáticas no grande e complexo bairro.
Ouviram muito, viram muito, sentiram muito as dores e as necessidades, os sonhos e os desejos de mulheres, homens e crianças que buscavam oportunidades dignas num novo país. Na verdade, não eram só os latinos que estavam pelo bairro. Ouviram-se nacionais da África, Oriente Médio, Ásia, Europa e muitos brasileiros.
Conceitualmente, entende-se que imigrantes são as pessoas que se mudam para um novo país com a intenção de morar, seja temporária ou permanentemente. Esse deslocamento pode ocorrer em busca de melhores condições de vida, segurança ou para escapar de conflitos e desastres em seu país de origem.
Migrar carrega consigo dificuldades no acesso a trabalho, moradia, saúde e educação, barreiras linguísticas e culturais, vulnerabilidade a abusos, exploração, xenofobia e discriminação. A falta de documentos, a ausência de uma rede de apoio e os traumas psicológicos também dificultam seu sentido de pertença na cidade de São Paulo.
Diante disso, como forma de minimizar tanta angústia e trazer um alento a pessoas migrantes e em situação de refúgio, o CIM colocou no papel e começou a desenvolver pequenas ações voltadas às prioridades, como o curso de Língua Portuguesa, a complementação escolar e a orientação para regularização migratória.
Causava estranheza abrir uma porta “nova” no bairro, onde não se cobrava nada para receber tão essencial ajuda. Como para tudo tinham de desembolsar recursos e tendo em vista a exploração laboral, o medo era grande. Mas não demorou muito para que as turmas de Português enchessem, os cursos de Informática tivessem lista de espera, uns números expressivos de crianças desejassem passar uma parte do dia aprendendo português, inglês, brincando e, claro, tomando um lanchinho.
A busca por orientação documental gratuita (o que lhes é de direito) cresceu substancialmente. Resgatar festas culturais e datas celebrativas dos países de origem foi também o que aproximou mais ainda as pessoas e suas necessidades.
Cada vez mais se viam migrantes querendo ajudar numa reforma, numa pintura, dar aula, colaborar de alguma maneira com aquele espaço que, para muitos, é “nosso espaço”. Os projetos, as ideias, as vontades, os desejos foram crescendo, e a casa do CIM ficou pequena.
Com apoio das irmãs, projetos e parcerias, conseguiu-se mudar para um espaço bem maior e que garantia, com qualidade ainda melhor, desenvolver os projetos que já existiam e criar outros mais.
Desde 2021, mais de 3 mil pessoas passam pelo CIM anualmente. São mulheres, homens, crianças buscando acolhida, escuta, formação profissional, estar com seus documentos regulares, aprender português, bater um papo, ver as novidades do bazar, participar das festas e ações conjuntas com a unidade básica de saúde, com a escola vizinha, com a comunidade paroquial… É ali que se concretiza o amor ao próximo. Este é o diferencial do CIM, sentir-se que é bem acolhido.
Hoje, após dez anos, com várias parcerias, muitos projetos, ações com o poder público e privado, os desafios não cessam. São desafios com relação à proteção da mulher, exploração laboral por falta de formação profissional, ansiedade com o futuro dos filhos diante da xenofobia e desrespeito à dignidade humana.
O CIM vai dando seu jeito. Ouve, acolhe, abraça, busca quem quer entrar com ele nesse desafio que é construir um mundo com “menos muros e mais pontes”.
Não são só flores, não. Buscar recursos, atender às demandas não é nada fácil. Mas, quando alguém passa pela porta e fala “Buenas tardes, bonjour… Oi, tia!”, não tem preço. Graças a Deus, pelo envolvimento de tantos voluntários, parceiros, equipe interna, foi possível consolidar a credibilidade que o CIM tem hoje no bairro do Brás e na cidade de São Paulo.
Parabéns, CIM! Resista, pois ainda temos muitos anos pela frente!
Para saber mais
SSpS: a compaixão expressa na integração dos migrantes e refugiados
Centro de Integração do Migrante socorre famílias atingidas pela pandemia
Receba nosso informativo semanal
Receba semanalmente, via e-mail, o informativo Destaques SSpS Brasil, com a coletânea das principais publicações do blog e nas redes sociais das irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS). Basta acessar https://blog.ssps.org.br/cadastre-se e se inscrever.
Maria Cristina Morelli
Assistente social e colaboradora pontual no CIM, São Paulo-SP.



