A dupla batalha da Amazônia: saúde mental e luta pela terra

A Vivat Internacional, organização da qual fazem parte as irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS), participou de duas discussões que lançaram luz sobre a realidade da Amazônia: a saúde mental dos defensores socioambientais e as complexidades históricas e políticas da regularização fundiária no Pará e em toda a Região Amazônica. As reflexões foram realizadas na segunda-feira, 17 de novembro, dentro da programação paralela à COP30, em Belém-PA.

Os debates destacaram que discutir o clima é discutir a vida, e isso exige abordar território, corpo, memória e futuro. A Amazônia é muito mais do que um bioma, é uma experiência humana definida por resistência, sofrimento e uma esperança persistente.

 

Dor que atravessa corpos e territórios

 

Um painel de discussão sobre saúde mental revelou uma ferida profunda: aqueles que defendem a vida na Amazônia estão adoecendo. Ativistas, líderes comunitários, mulheres, jovens, militantes dos direitos humanos e agentes pastorais estão lidando com uma crescente tensão emocional, política e espiritual.

Os depoimentos descreveram um quadro sombrio da crise:

 

  • exaustão extrema devido à carga de trabalho implacável e à luta contínua pela sobrevivência;
  • angústia diante de catástrofes ambientais cada vez mais frequentes;
  • ansiedade e medo, particularmente entre aqueles que vivem sob ameaça constante;
  • o desânimo e a frustração surgidos da persistente incapacidade das políticas públicas de atingirem eficazmente as comunidades que se propõem a servir;
  • rupturas internas nos movimentos originadas em tensões históricas e geracionais;
  • um aumento generalizado de casos de esgotamento profissional entre ativistas e trabalhadores socioambientais.

 

Um conceito poderoso surgiu como central para a discussão: o corpo-território. Quando o território é cercado, queimado, ameaçado ou violado, o corpo também sofre. A doença da floresta é a doença do povo. Quando a terra é roubada, o mesmo ocorre com a esperança. A dor que aflige a Amazônia é simultaneamente ecológica e humana. 

Apesar das dificuldades, o painel também destacou fortes sinais de resiliência: as comunidades estão criando as próprias políticas, reorganizando a resistência, construindo estratégias de cuidado coletivo e reafirmando seu compromisso com a vida.

 

Terra: fonte de conflito, raiz da violência e fundamento da dignidade

 

O segundo painel apresentou uma análise aprofundada da regularização fundiária no Pará. Um procurador agrário detalhou a extrema complexidade do mosaico fundiário da região, onde terras federais e estaduais, territórios indígenas, unidades de conservação, terras públicas não designadas e territórios tradicionais coexistem sob múltiplas camadas sobrepostas de disputas.

O problema é estrutural, histórico e moldado pela colonialidade. A política fundiária brasileira moderna está enraizada na lógica colonial das antigas sesmarias, que funcionavam ocupando terras consideradas “vazias” e, assim, ignorando os povos e sociedades que ali prosperavam havia séculos. Essa mentalidade persiste até hoje. A lei presume terras desocupadas, mas a realidade revela territórios repletos de vida, memória e um sentimento de pertencimento.

Os conflitos agrários no Estado do Pará são intensamente alimentados por:

 

  • sobreposição de jurisdições federais e estaduais;
  • apropriação indevida de terras (grilagem) e fraude documental generalizadas;
  • pressão exercida por novos colonos introduzidos por programas governamentais anteriores;
  • ausência de políticas públicas estruturais para as comunidades tradicionais;
  • insegurança jurídica permanente afeta milhares de famílias.

 

O defensor público destacou a dura realidade: a regularização fundiária continua um campo de batalha no qual a violência histórica se renova perpetuamente. Por essa razão, a luta pela terra está intrinsecamente ligada às lutas por dignidade, memória e justiça climática.

 

Compromisso da Vivat Internacional

A Vivat Internacional participou nesses debates, movida pela convicção de que cuidar de nossa Casa Comum exige uma visão integral capaz de enxergar não apenas a floresta, mas também os corações e as mentes das pessoas que vivem nela e a protegem.

A presença da Vivat Internacional reafirmou três princípios fundamentais:

 

  • não existe justiça climática sem justiça territorial;
  • não existe proteção ambiental sem a defesa da dignidade humana;
  • não há como cuidar de nossa Casa Comum sem cuidar dos corpos e das mentes daqueles que a defendem com coragem.

 

A Vivat Internacional está ao lado da Amazônia e caminhando com o povo. Mantém o compromisso de transformar o sofrimento em luta, a luta em esperança e a esperança em uma vida plena.

 

A Vivat Internacional

 

A Vivat Internacional é um organismo multicongregacional. Foi fundada, em novembro de 2000, pelas irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) e os missionários do Verbo Divino (SVD). Atualmente reúne 12 congregações que atuam em 121 países. Tem como missão de promover, em âmbitos internacional e local, a defesa dos direitos humanos e do cuidado com a Casa Comum. A Vivat tem status consultivo especial no Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas (Ecosoc) e está associada ao Departamento de Comunicações Globais da ONU.

 

Para saber mais

 

Vivat no encerramento da Cúpula dos Povos

 

Um apelo à conversão ecológica em meio à crise

 

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COP30: Vivat Internacional presente na articulação ecumênica e inter-religiosa

 

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Equipe SSpS Brasil, com informações e fotos da Vivat Internacional.

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